domingo, 12 de julho de 2026

Uma relação com o azar ou o espelho de Fortuna ou o sagrado direito ao desperdício

Na casa

O céu sobre a Mesopotâmia não se apressa: sob o denso manto negro pontilhado pelos brilhos fixados por um artesão cioso, a luz débil de uma lamparina de óleo de gergelim treme sobre uma mesa de cedro. Duas mãos, gastas pelo sol do deserto, movem pequenas peças circulares de osso sobre um retângulo geométrico: testemunhamos o Jogo Real de Ur. O tabuleiro, incrustado com pedaços de conchas brancas, arenito avermelhado e a azul profundo do lápis-lazúli, brilha discretamente sob o pavio aceso. Escuta-se o estalar seco das varetas marcadas que caem na madeira (o dado primitivo que dita o avanço ou o recuo dos peões de jogo). Não há moedas sobre a mesa, não há promessa de tributo, tampouco documento de posse e propriedade de terras. Há somente o hálito da noite, o som do osso contra a pedra e dois homens suspensos sobre uma arquitetura de vinte casas quadradas em miniatura, decifrando o capricho da sorte pela pura delícia de sentir o tempo dobrar-se sobre si.

Trinta séculos desabam em silêncio. A lamparina de óleo cede lugar a uma vela de cera pura, mas a chama dança com o mesmo ritmo hipnótico, fustigada pela brisa que sopra do Nilo para dentro de um pátio em Cairo, sob o sultanato mameluco. O céu segue idêntico: estrelas ocupam seus postos antigos infatigáveis. Na mesa, entretanto, o lápis-lazúli sumiu; em seu lugar, dedos ágeis e aristocráticos manuseiam tiras de papel rígido, espantosamente longas e esguias: cartas de jogar. A visão quase se exaure ao tentar decifrar a opulência barroca de suas superfícies: arabescos caligráficos complexos, tramas geométricas entrelaçadas até o delírio óptico. Quando o jogador inclina a mão para ocultar seu jogo do oponente, a vela não encontra mais a pedra opaca de Ur, porém ricocheteia na folha de ouro e na prata líquida que decoram os naipes de taças e cimitarras. O sussurro do papel substituindo o bater da pedra dá-nos a única pista de que os séculos avançaram. O jogo mudou seu corpo. O espírito que habita aquela mesa recusa-se a envelhecer.

Essa transição da pedra pesada ao papel ilustrado expõe a sofisticação de um impulso eminentemente humano: a necessidade de criar regras estritas para um gasto puramente inútil de energia. O luxo das cartas mamelucas (que guardam uma profética, quiçá perturbadora, semelhança com silhuetas heráldicas da cultura contemporânea) aponta para um paradoxo. O comércio da época exigia exatidão, contabilidade fria e registros de impostos em papiros ordinários; no entanto, para o jogo, exigia-se a iluminação do ouro e a delicadeza da arte em miniatura. Investir tamanha riqueza material no que não gera lucro constitui o verdadeiro ato de rebeldia contra o tempo utilitário. Ao jogar sem apostas, o homem mameluco, assim como o homem sumério antes dele, subverte a lógica do mercado: transformam o ganho e a perda em categorias puramente estéticas.

Ao cruzar a fronteira invisível que delimita um tabuleiro de Senet ou uma mesa de pife, o ser humano opera uma suspensão ontológica: cria um círculo mágico: espaço-tempo apartado da engrenagem do trabalho e da tirania do rendimento. Fora dali, tempo é dinheiro; dentro, não se o sente passar. Essa atividade dota-se duma gravidade paradoxal, inutilmente séria: o empenho que um jogador dedica a posicionar uma peça de osso ou a descartar um valete é absoluto, mas já nasce desprovido de qualquer finalidade produtiva. Na ausência da aposta (que reintroduziria a lógica mercantil do ganho e da perda) e, às vezes, dispensando até mesmo a obsessão pela vitória (como nos jogos de festa e de pura convivência, como a canastra), o jogo esvazia-se de produto para transbordar em experiência. Joga-se pelo puro prazer de sustentar uma ilusão partilhada sem visar à produção de um saldo ao fim de tudo.

É sob essa luz que devemos encarar as mecânicas do Senet ou do Jogo Real de Ur. Para a mente contemporânea, colonizada pelo design industrial e pela soberania do mercado, tais regras parecem ultrajantes: são sistemas matematicamente desequilibrados, injustos, nos quais a sorte atua como uma deusa caprichosa e tirânica. A estratégia permitida ao jogador é limitada, sempre encurralada pela contingência de um lançamento de varetas ou dados. Por que, então, a humanidade jogou esses jogos por milênios? A graça do lúdico jamais residiu em vencer o acaso. Trata-se de aprender a dançar com esse acaso envolvido numa moldura.

Despojado da necessidade de “otimização” — essa maldição que o vocabulário fabril tenta todos os dias aplicar à vida espiritual —, o tabuleiro ou a mesa coberta de feltro converte-se em um campo de presenças compartilhadas. Forma-se, ali, uma atenção coletiva focada no inútil. Há nisso uma dimensão sagrada à sua própria maneira, digamos até que o jogo conforma uma liturgia sem deus. Nessa, o acaso substitui o oráculo e a comunidade congrega-se além (ou aquém) da necessidade de produzir, corpos reúnem-se para estar e para esperar juntos simplesmente. A dinâmica do convívio puro media-se por essa espera compartilhada: a expectativa pela jogada do outro, o milésimo de segundo que antecede a revelação da face do dado ou a próxima carta que emergirá do maço.

Tanto nos tabuleiros antigos com suas casas especiais quanto nos baralhos de estrutura rígida, o ser humano busca um espelho para sua própria condição. O destino segue injusto: recebemos cartas ruins, o dado nega-nos o avanço das peças, a configuração atual do jogo encurrala-nos. Aceitar essa assimetria sem o amortecedor da aposta financeira constitui um exercício de mais elevada dignidade lírica. Sentar-se à mesa sob as mesmas estrelas que assistiram a Ur ruir significa pactuar uma trégua com o outro. Criamos um microcosmo no qual a injustiça da sorte gera riso, não rancor, ambiente em que a derrota não vem acompanhada de desonra, porque antecede a próxima rodada. O jogo revela a grande arquitetura amorosa do convívio: uma ordem artificial e temporária na qual jogamos para, juntos, suportar o mundo na vibrante solenidade da mesa.

Essa suspensão do tempo, ancorada na beleza física das peças, das ilustrações e das regras (por tímidas e irregulares que sejam), resgata a sociabilidade humana de seu estado de barbárie utilitária. No fim, jogar com cartas ou com um punhado de ossos gravados sob o mesmo céu estrelado que cobrira Ur outrora oferece-nos uma resistência poética com a qual nos lembrar de que nossa dignidade não se mede nem se deve medir pelo que extraímos do tempo, senão pela graciosidade com que habitamos o mistério de sua passagem.