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sexta-feira, 24 de abril de 2026

Ⅳ Manifesto (da) Vanguarda(da), de Glauco Mattoso, publicado no Jornal DoBrabil em qualquer momento entre 1977 e 1981 (não tenho os originais para verificar), conforme a grafia original, precedido de uma imagem acrescentada

Na casa
Cy Twombly. Olympia. 1957. Tinta a óleo para parede, giz de cera, lápis de cor e lápis de grafite sobre tela. 200 × 264,5 cm.

(M)arte:facto

A OBRA É UM ROUBO.
o leitor é um bobo.
o auctor é um
ladrão.
a auctoria é uma
usurpação.
a auctoridade,
idem ibidem.
a creação é uma
fraude.
creatividade é
repertorio.
imaginação é
memoria / em arte
nada se cria, tudo
se copia — e não
venham dizer que
isto já foi
dicto: pereant
qui ante nos
nostra dixerunt /
a historia é
anonyma.
a estoria é
espuria.
não interessa
saber si shakespeare
existiu ou não
existiu, esta
é a questão.
IDÉA NÃO É
PROPRIEDADE.
samba é como
passarinho.
VIVA O PASSARINHO!
VIVA O SAMBA!
ABAIXO O
COMPOSITOR!
todas as idéas
são de todos.
é tão licito
plagiar quanto
reivindicar
auctoria.
é até mais
licito:
o plagio é mais
honesto que o
original.
ladrão que rouba
ladrão tem
perdão perpetuo.
VIVA A CHUPADA!
VIVA A CAMA!
ABAIXO A FAMA!
a immortalidade
FEDE!
ABAIXO OS
MEDALHÕES!

terça-feira, 29 de março de 2022

Comentário leigo a Bava Batra 4a:3

Bava Batra 4a:3

Herodes disse a ele: “eu sou esse. Se eu soubesse que os Sábios eram tão cautelosos, não os teria matado. Agora, qual é o remédio deste homem?”, ou seja, o que posso fazer para me arrepender de minhas ações errôneas?

Bava ben Buta disse-lhe: “aquele que extinguiu a luz do mundo ao matar os sábios da Torá, como está escrito: ‘Porque o mandamento é uma lâmpada e a lei [ou seja, a Torá] é luz’ (Prov. 6:23)1, deve ir e ocupar-se da luz do mundo, isto é, do Templo, como está escrito em relação ao Templo: ‘E todas as nações fluirão para esse [lugar]’ (Isaías 2:2)2, [a palavra] ‘fluirão’ aludindo à [palavra] ‘luz’.”

Comentário leigo

Como Bava relacionaria as palavras “fluirão” e “luz”? Isso se deve à estrutura das palavras nas línguas semitas (línguas como o hebraico, o aramaico, o árabe e outras).

As palavras nas línguas semitas compõem-se a partir de uma raiz consonantal, não a partir de algumas sílabas com vogais e consoantes como em português (e todas as línguas neolatinas). O que une todas as palavras relacionadas à escrita, no português, é o bloco escr-, como em escritor, escrevente, escritura, escrever, etc.

Nas línguas semitas, o processo é diferente: as consoantes k, t e b compõem todas as palavras ligadas à escrita e a documentos escritos, como livros, vide os seguintes exemplos em hebraico: kāati (כתבתי): “eu escrevi”, kattāā (כתבה): “artigo”, miḵtā (מכתב): “carta-postal”, miḵtāā (מכתבה): “escrivaninha”, kəī (כתיב): “soletração”, taḵtī (תכתיב): “prescrito”, uttā (מכותב): “destinatário”, etc.

Além disso, o sistema de escrita hebraico registrava somente as consoantes das palavras. Apenas a partir do século Ⅸ E.C. desenvolveram-se sinais diacríticos que se adicionam às consoantes hebraicas para indicar as vogais das palavras — pequenos pontos e traços adicionados acima e abaixo das consoantes, chamados nəqudōt (singular: nīqqūd).

Daí Bava poder relacionar as duas palavras (“fluirão” e “luz”), pois continham as mesmas consoantes nos dois versículos citados por ele (wə·nā·hă·rū — וְנָהֲר֥וּ — nêr נֵ֣ר formando a raiz consonantal n-r, explícita em nêr e contida em nāhărū, assim uma palavra estaria dentro de outra, em seu interior, compondo seu sentido íntimo, isto é, de dentro, não oculto, mas literalmente — à letra — interno). Eis porque a hermenêutica judaica é uma hermenêutica eminentemente da letra e da palavra, não cedendo ao império do significado, senão abraçando os indícios deixados pelos significantes em seu rastro.


  1. nêr (נֵ֣ר): “lâmpada” (substantivo masculino singular), miṣ·wāh (מִ֭צְוָה): “comando, mandamento” (substantivo feminino singular), wə·ṯō·w·rāh (וְת֣וֹרָה): conjunção aditiva “” + “Torá” (substantivo feminino singular), ’ō·wr (א֑וֹר): “luz” (substantivo comum de dois gêneros singular).

  2. wə·nā·hă·rū (וְנָהֲר֥וּ): conjunção “” + “fluirão” (verbo de tema leve, isto é, simples, chamado tema qal (קַל), modo conjuntivo, aspecto perfectivo, conjugado em terceira pessoa plural comum de dois gêneros).

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Às vezes de nada e vazio

Alguém diz que o nada é o coração do vazio. Isso é verdade e está certo e é muito bonito. É tão verdade que se perde no nadificamento do próprio vazio (ou do próprio nada) e já não compreende que o ser só é porque pode não ser, isto é, que a linguagem é negatividade.

A ingenuidade (vazia) dos positivadores é crerem cegamente que o ser é e o não ser não é. Em uma palavra: P. P aparece nas dramatizações doutro P que é considerado o verdadeiro primeiro P, o P grandão. O segundo P, o P grandão, sabia que o não ser é e o ser não é, quer dizer, ocasionalmente, não sempre, às vezes, porque o P grandão, o segundo P, admirava o P primeiro, o anterior, por isso chamou essa doideira de jogo dos Ss e os ofendeu, falou mal deles mesmo, pestanejou, quis que assim não fosse, porque se assim fosse, assim não seria, assim não era, portanto, daí que se deduz que não poderia ser assim, portanto assim não fora jamais, nem jamais seria.

Muita gente que conhece essa história, desconhece-a; quem não a conhece tende a entendê-la melhor (porque é mesmo uma história sobre desconhecimento).

Sem o nada, o ser não é, quer dizer, o ser é nada, mas também não o é, porque se o fosse, nada seria. A brincadeira, muito sagaz, dos Ss, é compreender que nada pode ser plenamente, porque ser plenamente significa ser todo o ser, o que é impossível seguindo à risca – e há um risco nessa risca, quer dizer, há que arriscar-se, mas com cautela, porque correr risco, correr o risco, é corrido e arriscado – porque o ser está sendo e nunca se acabou de ser. Talvez seja um pouco como tomar banho, tem que tomar todo dia. Não sabemos (ainda).

O ser só pode ser-se quando é porque não é, nesse seu não ser íntimo, ele se desseriza, dessendo-se até o chão do nada, nadando-se, para ressear. “Mas quem é?”, perguntou o do fundão. Bom, aí é difícil, amigo. Se fosse da altura que era, não cresceria, porque era, quer dizer, era plenamente, daquela altura, jamais menor ou maior, mas se mudou o tamanho, então não era, rigorosamente, daquela altura, mas era só o ter alguma altura e essa altura mesmo deixou de ser a si mesma, quer dizer, mudou seu tamanho, sua medida, nadou-se, mudou-se para outra, que não era aquela, aquela não era.

O segundo P, o P grandão, não era muito satisfeito com essa história dos Ss, sim? Aceitou-a pela porta de trás, como é típico dos Fs, fingindo rejeitá-la. Melhor dito: acreditou rejeitar o jogo dos Ss, mas sua rejeição mesma estava dentro, nas, jogadas possíveis do jogo dos Ss, dentro de suas regras, nada de mais, nem de menos, nada de novo.

No fundo, eu quero dizer que o alho e a cebola, na panela no fogo, estão cheirando muito bem.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Menina-estrelas

Menina-estrelas
, constelação encarnada
, deixa beijar-te a boca
fazendo estalo que ressoa
pelo universo do teu quarto
, apertando teus quadris
.

Sorris
: desejo
, é fato
.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

eu ser só

eu
tanto
quanto
ser
longamente
dever

eu
nunca
eu

mar
de ilusão
calor
?

alguém
apenas
?

tanto que só
eu

quem
?

plenamente
apenas

eu
.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Hermetology #10

F. Kittler wrote somewhere:

As the Canadian poet Anne Carson has brilliantly shown, the whole poem centres on Sappho's dialectal word 'dēûte', which paradoxically means 'now' and 'again' at the same time. To put it in other words: Sappho, for the first time in European history, calls Eros, the god of love, simultaneously bitter and sweet.

Dēûte: againow.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

MitoLógicas #7

Escreveu um poema

Ele: cavalheiro, como todos. Rosto invisível, ausente, fazia charme – marcante, o jeito seu. Nos ares da cidade, cheia de cinza e vazia de gente, peito pulsante por um sorriso. Ela: princesa no sentido parcial do termo. Abandonada pelo mundo, emaranhada em falas e bocas e olhares e línguas e cheiros e toques. Aquecida acolhida encolhida nele encontrou. Trocaram palavras muitas: não comerciavam, não escambavam; amavam.

Em seu coração: espinho (falante). Palavras vis e intentos pueris de trajar e andar e viver.

Moços: feridos. Dor desigual. Corações: fora do lugar, despetalados.

Partida: ela, com coragem, sob a chuva. Refletida onde já ele não via; entretido noutro pulso. Ele: novo, nova acolhida encolhida; fria; úmida. Igual? Não há (como) saber. Respiração: agitada. Aventura, a nova. Gritou, ardeu, odiou, finalizou: vida, presenteie-me com amor!

Sem direito a exposição, modulação, recapitulação, a sonata ficou demasiado sonora e pouco musical.

Rosto bonito: fim trágico: justo, o mais.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

XXX [O.B.]

Ao coração que sofre, separado do teu, no exílio em que a chorar me vejo, não basta o afeto simples e sagrado com que das desventuras me protejo. Não me basta saber que sou amado, nem só desejo o teu amor: desejo ter nos braços teu corpo delicado, ter na boca a doçura de teu beijo. E as justas ambições que me consomem não me envergonham: pois maior baixeza não há que a terra pelo céu trocar; e mais eleva o coração de um homem ser de homem sempre e, na maior pureza, ficar na terra e humanamente amar.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Dez sugestões para descolonizar o inconsciente, de Suely Rolnik, minimamente manipulado por Igor S. Livramento

1 Desanestesiar a vulnerabilidade às forças em seus diagramas variáveis, potência da subjetividade em sua experiência fora-do-sujeito; 2 ativar o saber-do-corpo: a experiência do mundo em sua condição de vivo, cujas forças produzem efeitos em nossa condição de vivente; 3 desobstruir o acesso à tensa experiência do estranho-familiar [unheimlich]; 4 não denegar a fragilidade resultante da desterritorialização desestabilizadora que o estado estranho-familiar promove inevitavelmente; 5 não interpretar a fragilidade e seu desconforto como 'coisa ruim', nem projetar sobre isso leituras fantasmáticas (ejaculações precoces do ego, provocadas por seu medo de desamparo e falência e suas consequências imaginárias: o repúdio, a rejeição, a exclusão social e a humilhação); 6 não ceder à vontade de conservação das formas e à pressão que esta exerce contra a vontade de potência da vida em seu impulso de produção de diferença. Sustentar-se no fio tênue deste estado instável até que a imaginação criadora construa um lugar de corpo-e-fala que, por ser portador da pulsação do estranho-familiar, seja capaz de atualizar o mundo virtual que esta experiência anuncia, permitindo assim que as formas agonizantes acabem de morrer; 7 não atropelar o tempo próprio da imaginação criadora, para evitar o risco de interromper a germinação de um mundo e, com isso, tornar a imaginação vulnerável a deixar-se desviar pelo regime colonial-cafetinístico. Tal desvio transforma a imaginação criadora em mera 'criatividade' a serviço da reprodução do status quo que, mascarado de 'novidade', torna-se sedutor e mobiliza o desejo de consumo; 8 não abrir mão do desejo em sua ética de afirmação da vida, o que implica em mantê-la fecunda, fluindo em seu processo ilimitado de diferenciação; 9 não negociar o inegociável: tudo aquilo que impediria a afirmação da vida, em sua essência de potência de criação. Aprender a distingui-lo do negociável: tudo aquilo que se poderia reajustar porque não obstaculiza a manifestação da força vital instituinte mas, ao contrário, gera as condições objetivas para que ela se realize em seu destino de produção de acontecimento; 10 praticar o pensamento em sua plena função: indissociavelmente ética, estética, política, crítica e clínica. Isto é, reimaginar o mundo em cada gesto, palavra, relação, modo de existir – toda vez que a vida assim o exigir.

Vale lembrar que este trabalho de artesania de si, do qual depende a descolonização na esfera micropolítica, implica um esforço constante que jamais atinge sua plena e definitiva realização. Ao longo de nossa existência, oscilamos entre políticas do desejo que variam entre seus dois extremos. De um lado, a submissão ao poder dos fantasmas que nos trazem de volta para nosso personagem habitual na cena colonial-capitalística, com o qual participamos das relações de abuso (o que inclui o personagem da vítima). De outro, um trabalho sem fim para desmanchar este personagem, nos reapropriarmos da pulsão e, por ela guiados, criarmos um outro personagem, que esteja à altura da vida, encarnando sua potência de transfiguração. É neste horizonte que situam-se as pistas e sugestões aqui indicadas; elas trazem as marcas dos limites atuais de meu trabalho nesta direção. Sendo este um trabalho infinito de cada um e de muitos, tais pistas e sugestões estão aqui para serem revistas, reajustadas, ampliadas, transformadas, multiplicadas ou até mesmo abandonadas em favor de outras, mais precisas e fecundas. É isto o que espero com a apresentação destas ideias.

terça-feira, 27 de março de 2018

Nimbo

Faço pedidos cadente(s) junto(s) à estrela.
Parto d(aqui).
Presa em sonhos, orando por escapes,
por enquanto lida com a travessura
de tantos pensamentos pela cabeça.
Dormindo tão profundamente, pensaram estar morto.
Coração batendo no foco.
Caindo das nuvens com(o) chumbo.
Caminhando no pesadelo
acordado.
Só queria demônios justos.
Viver uma vida
onde(?)
a paz não viesse com(o) ar noturno.
Os sonhos vêm aos travesseiros.
Sentir o luar janelar
relaxar e aliviar
esse estranho estresse entranhado.
Exilado externo entre estrelas exigindo existir extra(vagante) elemento extra(ordinário).
Somente no palco quando imerso;
ninguém percebe pois a máscara é viva.
Temer não durar
até a última noite
sonhando pela metade
até esgotar, extraviar, extinguir, e(liminar).
Esquecer com(o) respirar = asma.
Concordam: não é (dis)simulado,
(in)afetado;
seria fictício?
T(r)emo(r) – é viver sofrer?
Amo(r) = ter catorze numa bolha.
Cansaço de cansar, cansaço de cansado.
Languidesejo.
Lubri(cida[de)la].
Cansaço de acordar em dormir.
Olhos bem abertos de sonhar.
Palavrento.
Amórdio.
Es(forço).
Normanimalidade.
Insensinverno.
(In)clemente.
Não pode pedir mais, não pode pedir muito, não pode pedir. (nada)
Braços em derredor enlouquecem,
peitopresso
, carinhosamante.
Claramente seguro
pela vigília.
Medos quase passados.
Intragradável.
Dos astros, a queda
calamidadesastrexpansão.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

El ser es una pura exigencia tendida entre el lenguaje y el mundo.

El ser es una pura exigencia tendida entre el lenguaje y el mundo. No es una simple posibilidad, sino un modo de la potencia en la medida en que, si la existencia es una exigencia de la posibilidad, entonces la posibilidad se vuelve una exigencia de existencia.

apariencia y aparición

La apariencia es el conjunto de datos sensoriales que permite imaginar un objeto. La aparición, sin embargo, es la imagen en n+1 dimensiones de los puntos capitales del objeto. Es un molde que permite la construcción del objeto. Es el reverso mismo de la imagen de ese objeto.

Fragmento sobre ilusão óptica

Um fenômeno psicobiofísico como a ilusão de óptica nos mostra que mesmo um olhar tido por normal ou até treinado é enganado e aquele que se supõe desenganado engana-se a si mesmo e a mais ninguém.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Metamorfoses na noite

Eu vi seu olhar desviando do meu quando disse ter ido para casa. As luzes virando viraram o jogo; você confessa: (não) estava só. Nem todos os meus erros se comparam ao único que você cometeu. Nem a maior dor de cabeça se compara à que você me causou. Horror. Seu novo namorado usa calça de menina.

domingo, 10 de setembro de 2017

EMHOMANAGEMARA

O ser é um efeito de discurso entre outros, e a ontologia é uma vergonha [honte, donde hontologie], a não ser que tomemos a ontologia como hantologia, um saber dos espectros, ou, em outras palavras, daquilo que se diz e permanece esquecido atrás do que foi dito naquilo que se ouve, o que, em última análise, retrai-nos à questão da aisthesis, palavra digna de figurar, de fato, com destaque em um dicionário dos intraduzíveis.
    A aisthesis é um derivado de aisthanomai [αἰσθάνομαι], e, como tal, configura um conceito altamente equívoco. Depende de suas relações. O verbo aisthanomai provém de ἀΐω, e este do sânscrito avih [आविस्], como o latim audio, ou seja, significa ouvir, escutar e, menos frequentemente, obedecer. Usado com genitivo aponta a fatos sensoriais (exceto a visão) e se poderia traduzir como perceber. Com objeto em acusativo, significa compreender. E com genitivo de origem, quer dizer tomar conhecimento por meio de alguém, vir a saber, através de uma língua, por exemplo. A tradução mais comum do verbo aisthanomai, ou seja, sentir, tem, por outro lado, inicialmente, o significado de perceber pelo odor, ou inclusive exalá-lo, o qual mostra que, na aisthesis, há fusão de sujeito e objeto, algo que se comprova além disso no deslocamento de aisthesis a nous, quando traduzimos o conceito como sensus. O termo grego nous (inteligência, espírito, mente, sagacidade, sabedoria, alma, intenção, desejo) nos conduz ao paradigma da visão, já que o verbo latino intueri (ver) recupera a matriz visual de teoria, o species. Aisthesis, no entanto, mostra uma sensibilidade de downcast eyes, para retomar o conceito de Martin Jay, do qual concluímos que, substituir a mimesis pela aisthesis nos abre um campo muito complexo de relações.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Karl Marx propõe uma definição de ficção

O dinheiro – enquanto exterior, não oriundo do homem enquanto homem, nem da sociedade humana enquanto sociedade – meio e capacidade universais, faz da representação efetividade e da efetividade uma pura representação, transforma igualmente as forças essenciais humanas efetivas e naturais em puras representações abstratas e, por isso, em imperfeições, angustiantes fantasias, assim como, por outro lado, transforma as efetivas imperfeições e fantasias, as suas forças essenciais realmente impotentes que só existem na imaginação do indivíduo, em forças essenciais efetivas e efetiva capacidade. Já segundo esta determinação o dinheiro é, portanto, a inversão universal das individualidades, que ele converte no seu contrário e que acrescenta aos seus atributos atributos contrários.

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo editorial, 2008, p.160.

domingo, 16 de abril de 2017

Enquanto ferve, do café, a água

O texto que segue é uma releitura de Enquanto ferve a água do café, de minha querida Fernanda Marchi. A quem interessar o texto inspirador, segue o link: https://www.facebook.com/fernanda.marchi.7/posts/1096196537153812

Enquanto ferve, do café, a água

És lago sobre vulcão: aconchegante; se me deito longamente, murcho, resseco. Fervilhando; borbulho à superfície de ontem – fomos, não somos mais; éramos. Teu vapor-toque em meu rosto: seria eu, minha angústia, essa água quente escorrendo por fora?
Porque outrora nos embebia este bálsamo – um gole de café. Naqueles teus dias tão nossos, um energizante; hoje, analgésico para dores incorpóreas.
Tanto pensei em ti, a vida esfriou meu café. Minha negação.