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domingo, 11 de fevereiro de 2024

Sobre algumas questões literárias e da escrita criativa

[L]o que está en juego en el trabajo literario (en la literatura como trabajo) es hacer del lector no ya un consumidor, sino un productor del texto.

Roland Barthes. 1. La evaluación. In: S/Z. Trad.: Nicolás Rosa. Ed. rev. y corr. México: Siglo ⅩⅪ, 2011. (Teoría.)

Uma das questões que mais me tem convocado sobre o estado atual da literatura é a falta de ênfase nas transformações e mudanças. Tanto os escritores contemporâneos quanto os acadêmicos parecem ter perdido o tato para a natureza dinâmica da narrativa literária. A experiência leitora ensina que personagens não são estátuas, estados de coisas paralisados, senão movimento, passagem, transição de estados de espírito, modificação de crenças, alteração de interações.

domingo, 17 de setembro de 2023

Sobre um parágrafo de Gustave Flaubert

Sobre Mário Quintana

Mesmo que não comunique nada, o discurso representa a existência da comunicação; mesmo que negue a evidência, afirma que a fala constitui a verdade; mesmo que se destine a enganar, especula com a fé no testemunho. […] O inconsciente é a parte do discurso concreto, como transindividual, que falta à disposição do sujeito para restabelecer a continuidade de seu discurso consciente. (Lacan, 1998, cap. “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise — 1953”, pp. 253, 260)

Literatura, subjetivação e o âmbito simbólico

O que a poesia faz ao sujeito? Essa pergunta eminentemente moderna transforma as ordens poéticas até então estabelecidas (ordenações estéticas e epistemológicas). A partir dessa questão, compreende-se que o poema torna-se em um plano simbólico de subjetivação, ou seja, um dos âmbitos de produção de subjetividade (Lacan, 1998, pp. 292, 302 et seq., 2021, cap. Ⅴ et seq.). Misturando os sujeitos — sujeito poético (ou diegético), sujeito poeta (ou autor), sujeito leitor —, a poesia não se reduz ao seu tema ou assunto1 e atua na subjetividade em geral.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Método de Expansão Progressiva para Projetos de Romances (MExPRo)

  • Escreva uma sentença que resume a história do romance.
Pense algo como: "Um cientista volta no tempo para matar Hitler".
Temos aí tudo que precisamos para saber do que se trata: quem vai fazer o que e como vai fazer isso. Podemos utilizar qualificações ("Um cientista maluco volta no tempo…"), não é hora de colocar nome nos personagens.
Menos é mais: tente redigir algo com menos de 25 palavras.
Foque no drama, no conflito, e misture a imagem global à imagem local: o que está em jogo para quem? Quem tem o que a perder? E o que busca conseguir?
Dê-se tempo durante todos os passos. Todo tempo que tomar em cada passo você economizará dez vezes mais no momento de escrever o romance.
  • Expanda a frase para um parágrafo descrevendo a narrativa (eventos importantes e final).
Há uma fórmula utilizada no cinema, no teatro e nos romances de sucesso, que ajudará agora, chamarei de "três desastres e um final". Cada desastre leva aproximadamente 1/4 do livro, portanto 3/4 são desastres e o final é… O final.
  1. Começa-se com uma apresentação do mundo ficcional e do protagonista, seguida da preparação para o primeiro desastre.
  2. O primeiro desastre acontece por razões ligadas ao mundo ficcional, porém desvinculadas das ações do protagonista.
  3. O protagonista tenta resolver a situação, mas sua decisão só piora as coisas.
  4. Isso leva ao segundo desastre.
  5. Mais uma vez tenta resolver as coisas e isso agrava ainda mais o quadro.
  6. Isso culmina no último desastre.
  7. O protagonista sofre alguma mudança nesse processo todo e toma a decisão certa.
  8. Isso leva ao final.
Isso faz com que o parágrafo tenha cinco frases:
  1. ambientação;
  2. primeiro desastre;
  3. segundo desastre;
  4. terceiro desastre;
  5. final.
  • Desenvolvimento das primeiras notas sobre personagens.
Agora que você tem a visão geral da história, é preciso pensar nos agentes dessa confusão. Os personagens constituem o mais importante da sua ficção. Esqueça enredos complicados, plot twists e qualquer outra coisa. Personagens fazem toda a diferença porque nos ligam ao mundo ficcional. Portanto todo tempo utilizado aqui será recompensado no momento de escrever.
Faça um sumário para cada personagem principal contendo as seguintes informações:
  1. Seu nome.
  2. Uma frase de resumo da sua história dentro do romance.
  3. Sua motivação: o que ele quer, em sentido abstrato?
  4. Seu objetivo: o que ele quer, em sentido concreto?
  5. Seu conflito: o que o impede de alcançar seu objetivo?
  6. Sua transformação: o que ele aprenderá? Como ele se modificará por causa disso?
  7. Um parágrafo resumindo sua história dentro do romance.
Como saber se um personagem é principal? Simples: ele causa e/ou resolve algum dos três desastres? Em caso afirmativo, é um personagem principal. Se ele causa o segundo e o terceiro conflitos e resolve o terceiro, então ele é o protagonista.
Se, neste passo, você perceber que precisa voltar ao parágrafo de resumo do romance para corrigir alguma incongruência em relação aos personagens… Volte lá e arrume! Isso é um ótimo sinal, pois significa que seus personagens estão te contando a história deles – a qual é a história que você irá contar quando sentar-se para escrever o romance ao final do planejamento. Por isso volte sem medo ou vergonha. Qualquer revisão feita agora previne revisões em manuscritos com centenas de páginas.
Não se importe tanto em fazer algo perfeito. Importe-se em fazer essas anotações e seguir para o próximo passo. Esse é o propósito do passo-a-passo: terminar um passo para alcançar o próximo. É saudável voltar e modificar, significa que você está se envolvendo cada vez mais com a história e está amarrando as pontas soltas. Isso garantirá um romance muito bem acabado.
  • Volte ao resumo do romance feito no segundo passo e transforme cada uma das cinco frases em um parágrafo.
Por aqui você já deve ter passado um ou dois dias, talvez mais, desenvolvendo os passos anteriores. Ótimo! A pressa, neste caso, é inimiga mortal da perfeição, pois estamos trabalhando (indiretamente) com o inconsciente e este exige seu próprio ritmo, tem seu próprio tempo.
Leve quanto tempo precisar – provavelmente algumas boas horas – transformando cada uma das cinco frases presentes no resumo do romance (do segundo passo) em um parágrafo inteiro. Se as contas estiverem corretas, todos os parágrafos terminarão num desastre, exceto o último, o qual deverá conter o fim da história (realmente conte como tudo termina).
Por trabalhoso que pareça, tente se divertir, é um dos passos mais parecidos com o ato de escrever ficção.
  • Volte ao terceiro passo e escreva sumários de uma página para cada personagem principal.
É hora de acrescentar carne ao esqueleto: volte aos sumários de personagens principais do terceiro passo e descreva os personagens em uma página (ou mais). Inclua tudo que puder, quanto mais souber sobre eles, melhor; isso garantirá um excelente romance.
Uma dica: tente contar a história da perspectiva do personagem sobre o qual está escrevendo. Isso ajudará a compreender sua personalidade.
Outra dica: demarque cada personagem por um arquétipo/função. Não se prenda à teoria de Jung ou qualquer outra, mas tente resumir o personagem em uma palavra, ex.: trickster, zoeiro, love interest, antagonista, rival, sonhador, etc.
Com certeza você terá de voltar ao que escreveu nos passos anteriores para ajustes e correções. Volte e corrija e ajuste, sem vergonha, sem receio, sem temor. Todo esforço agora será recompensado depois.
  • Retorne ao sumário do romance feito no quarto passo e transforme cada parágrafo em uma página.
No quarto passo você transformou as frases (do segundo passo) em parágrafos. É hora de repetir esse gesto e expandir cada parágrafo em uma página (ou mais) de resumo da história. Agora você começa a detalhar cada desastre e a relação do protagonista com a situação.
Certamente você terá de retornar aos passos anteriores para arrumar as coisas. Desavergonhe-se e volte com toda a certeza de um bom arquiteto de ficções. Seu edifício se manterá glorioso e firmemente de pé devido a essas correções retroativas.
  • Expanda as descrições dos personagens feitas nos terceiro e quinto passos até não poder mais.
Escreva tudo que souber e puder sobre seus personagens: data de nascimento, comida favorita, cor favorita, também o que detesta, aquilo que lhe é indiferente, seu porte físico, de que se compõe seu guarda-roupas, manias, tiques, sua história, e o mais importante: como mudará ao final do romance.
Neste passo você deverá acrescentar os personagens secundários e os terciários.
Personagens secundários são aqueles que aparecem e interferem na história, possuem personalidade distinta, mas de quem não acompanhamos a história.
Personagens terciários são aqueles que aparecem, mas não interferem na história, portanto não possuem personalidade notável e não sabemos suas histórias.
Exemplo de personagem secundário: um avô conselheiro do protagonista, mas só o encontramos algumas vezes, quando o protagonista atende ao telefone (ou telefona) e quando vai visitar a casa de campo.
Exemplo de personagem terciário: o garçom do bar no qual o protagonista conversa com sua paixão.
Como você pode perceber, os personagens terciários são extremamente fugazes, mas você sempre pode apimentar as coisas colocando um pouco de personalidade em algum gesto ou fala desses personagens: quem sabe o garçom encara demoradamente os olhos da paixão do protagonista enquanto os serve…
Não tenha dúvidas de que os personagens farão demandas quanto à história; você deve atendê-las: volte e corrija retroativamente o que escreveu nos passos anteriores, a fim de manter a coerência da sua ficção.
  • Retorne ao sumário expandido do romance no sexto passo e faça uma lista de cenas.
Faça uma lista das cenas presentes em cada parágrafo do resumo estendido do romance produzido no sexto passo. A lista deve conter uma frase para cada cena.
Cenas sempre se encadeiam em pares de eventos seguidos pelas sequências desses eventos. Portanto, se você escreveu uma frase que resume uma cena na qual algum evento leva os personagens à ação, a frase seguinte (que resume a cena seguinte) deverá ser uma sequência em que os personagens reagem.
  • Expanda as cenas listadas no passo anterior para, pelo menos, um parágrafo.
A esta altura você já sabe o que fazer: abra um programa de planilhas (Microsoft Office Excel, LibreOffice Calc, Google Planilhas, etc.) e faça uma linha (ou coluna) para cada cena-de-uma-frase que você criou no passo anterior e associe a ela um parágrafo inteiro detalhando o que acontece. Também marque o foco narrativo: a partir do ponto de vista de qual personagem essa cena será percebida? Marque todos os personagens presentes na cena.

  • Uma breve explicação sobre eventos e sequências.
Um evento se divide em três partes:
  1. Objetivo: o que o personagem quer. Deve ser algo claramente definido e, portanto, específico. Isso fará o personagem agir ativamente.
  2. Conflito: obstáculos que impedem o personagem de conseguir o que quer.
  3. Fracasso: o personagem não alcança seu objetivo (se alcançar, você chegou ao final do romance). Algo ruim deve acontecer ao personagem.
Uma sequência começa do fim de um evento e também se divide em três partes:
  1. Reação: é a resposta emocional ao fracasso. Agora é a hora de fazer o leitor sofrer junto do personagem. Este é o momento para mostrar o tempo passando. Porém, não permita que o personagem chore para sempre; ele deve buscar suas opções, mas… Não há nenhuma opção…
  2. Dilema: é a falta de (boas) opções. Se o fracasso foi mesmo terrível, então não haverá boas opções. Permita que o personagem decida, ponderando qual a saída menos pior para a situação.
  3. Decisão: é a saída que o personagem ativamente toma para (tentar) melhorar (su)a situação. Faça-o tomar uma boa decisão. Uma decisão que o leitor respeitará, mesmo que seja arriscada. Dica: se for arriscada, ela precisa ter uma chance de dar certo, para ser respeitável. Faça isso e o personagem gerará um novo objetivo (o sucesso da sua decisão).
Assim a engrenagem da ficção só parará de girar na última cena, no final do romance, quando o objetivo for efetivamente alcançado.

Na pequena escala da estrutura textual, posso dar ainda mais uma dica: as cenas (sejam eventos ou sequências) devem ser escritas como pares de estímulo e resposta.
O estímulo é externo ao personagem e é percebido por ele, portanto utiliza-se de todos os recursos da percepção cabíveis à situação (os cinco sentidos, emoções imediatas, etc.).
A resposta é subjetiva e nasce do interior do personagem, portanto deve respeitar a ordem psico-fisiológica possível de se responder a uma situação.
Exemplo: "O tigre desceu da árvore e pulou na direção de Fernando." Eis o estímulo. Objetivo, direto, claro, breve, sem rodeios.
A resposta é sempre mais complexa que o estímulo porque incorpora o fator subjetivo (do foco narrativo, da perspectiva do personagem); por isso, respeita-se a agilidade natural: primeiro a emoção, depois o reflexo, por fim raciocínio lógico e fala estruturada.
Exemplo: "Sentindo a terra tremer sob o peso do animal, suas pupilas dilataram, seu coração acelerou e Fernando foi tomado por uma explosão de adrenalina. Alinhou a espingarda no ombro, mirou o coração da fera e pressionou o gatilho.
— Morra, degraça!".
É perfeitamente aceitável produzir uma resposta parcial, que não contemple as três dimensões (emoção, reflexo, raciocínio/fala), mas é preciso que se respeite essa ordem. Se o personagem precisa falar, então é preciso passar pelas duas primeiras etapas da resposta.
Para continuar o funcionamento da máquina ficcional, retorna-se ao estímulo: "A munição estalou no lombo do animal. Sangue esguichou da ferida. O tigre rugiu e hesitou, então saltou rumo à garganta de Fernando."
E assim segue.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Dez dicas de Fabián Casas para quem quer escrever ficção

Meu amigo Duncan sempre me diz que pode ver o futuro. “Isso ou aquilo vai acontecer com você”, ele me diz e invariavelmente acerta. Lembro-me de uma vez em que Leonidas Lamborghini, recém chegara do México, disse-me que a poesia tinha um poder oracular. Agora meu amigo Duncan tem que terminar um livro e me pediu “algumas dicas para escrever quando não consigo escrever”. Portanto, estas anotações são uma carta a um jovem profeta. Lá vão, Duncan.
  1. Escreva como se seu leitor não fosse surgir enquanto você estiver vivo, isso é libertador.
  2. Abandone qualquer reivindicação de originalidade. Pegue um autor que você gosta e copie-o até deformá-lo.
  3. Se o que você escrever parecer muito literário, é possível que você esteja exportando uma imagem da literatura a outra: isso ajusta as imagens e é chamado de “casamento entre primos”. Explico: na história “Palo y hueso”, Saer descreve a luz que uma lanterna faz numa cabana na encosta. Isso ele não tirou da literatura, porque sentimos que Saer viveu isso.
  4. Dos escritores que se lê, não é tão importante o conteúdo nem a forma como escrevem, mas a operação mental. Assim, Armando Bo faz Isabel Sarli chegar a Paris em um trem do nosso Conurbano. 
  5. O que Bo faz é fazer a realidade funcionar a seu favor, como Aira, Rejtamn, Uhart, etc.
  6. Agora uma linguagem inclusiva está surgindo; espere até que esteja bem assada: você precisa ser politicamente concreto, mas não politicamente correto.
  7. Se você está no meio de um parágrafo porque não consegue tirar um personagem de uma sala, explique a alguém o que deseja fazer e ouça o que lhe responderão. Em seguida, coloque no papel.
  8. Para escrever, é essencial “ter experiência”, isto é, aceitar que você é mortal e que as coisas que você vê, ouve e toca desaparecerão com você.
  9. Primeiro você precisa ser um leitor criativo para depois escrever. Você precisa escrever – como Pierre Menard – enquanto lê.
  10. Sorte.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Sobre o uso do diálogo na ficção em prosa

Caso você tenha extrema facilidade em escrever diálogos, ótimo, pois isso é raro, mas pergunte a si mesmo se, por acaso, e sem o saber, você não está evitando narrar. Lembre-se: é na narração que se prova a competência de um ficcionista.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Dica de escrita

Fluxo de trabalho simplificado:
  1. Criatividade: capacidade de criar ideias.
  2. Imaginação: capacidade de tornar as ideias criadas imagens concretas.
  3. Habilidades:
    1. Dramática: pensamentos, falas e ações de personagens.
    2. Narrativa: organização de informações em estruturas significativas.
    3. Linguística: apresentação elaborada das duas habilidades anteriores através de mobilizações dos recursos disponibilizados pela(s) língua(s).
  4. Mestria: sensibilidade e bom-gosto aliados ao estudo e à análise dos grandes de ontem e hoje de modo a conceber uma obra capaz de fascinar, encantar, entreter, deleitar e envolver.

domingo, 29 de setembro de 2019

Dica de escrita

Acreditamos que bloqueio criativo é normal, pois muitas pessoas comentam sofrê-lo. Porém, não passa de falta de estruturação, por vezes um julgamento excessivamente severo de nós mesmos, ou incompreensão do processo de escrever.

Erro comum de escritores iniciantes: abrir o documento de redação de textos e esperar a inspiração aparecer para começar a digitar. Não espanta que muitos travem ao olhar para a página em branco, paralisados por não saberem o que fazer.

Trabalho criativo não é uma linha de montagem em que toda produção segue sempre as mesmas etapas. Escrever é um processo criativo tortuoso, muito longe de qualquer processo linear. Ganhamos a confiança necessária apenas na revisão, sentimos nesse momento que tudo irá se arrumar.
  • Pesquisemos o tema, as ideias aparecerão mais fácil na hora de escrever.
  • Deixemos tempo às ideias para convergirem no ângulo único que as abordaremos, isso enriquecerá o texto, tornando-o atraente.
  • Estruturemos o texto antes mesmo de digitarmos a primeira letra, dando-nos um mapa para quando nos sentirmos perdidos.
  • Evitemos o julgamento ao escrever o primeiro rascunho, pois sabemos que será péssimo – percamos a ilusão da perfeição instantânea. Apenas escrevamos.
  • Descansemos (d)o rascunho antes de revisá-lo. Com a mente fresca, noutro momento, garantiremos revisão cirúrgica, corrigindo erros bobos.
Todos esses passos são dados a "portas fechadas" – ou seja, somos nós e mais ninguém. O público ainda não teve contato com a escrita.

O último passo é decidir quando abriremos as portas para revelar ao mundo nossos textos. Não existe momento perfeito. Mas uma coisa é certa: o maior arrependimento não é publicar um texto e falhar. O maior arrependimento é não ter coragem para compartilhar nossas ideias com o mundo.

sábado, 28 de setembro de 2019

Dica de escrita

Há um terminus technicus da música chamado timbre. Observemos os significados dicionarizados do termo:

Timbre
substantivo masculino
Marca, sinal, insígnia, principalmente em papel de correspondência oficial, comercial ou particular. Selo; carimbo. Física e Fonética: qualidade que distingue dois sons da mesma altura e da mesma intensidade.

Trata-se do último sentido, ligado à acústica (área de estudos da física). O timbre de um instrumento musical é aquela parte do som desse instrumento que nos permite distingui-lo de outro instrumento musical, caso ambos toquem a mesma nota. É assim que deve se dar nossa dicção na escrita. Mas o que é dicção? Voltemos ao dicionário.

Dicção
substantivo feminino
Maneira, modo de dizer, de pronunciar as palavras – articulação, pronunciação, pronúncia. Expressão, sentença, vocábulo ou reunião ordenada, de certos sons que expressam um pensamento. Arte ou modo de dizer no que se refere à estrutura e às escolhas das palavras certas – estilo.

Sim, a dicção do escritor é seu estilo.
Nesta dica, fornecerei dez orientações para nos ajudar a encontrarmos nossa dicção, nosso estilo. Vamos lá!
  1. Descreva-se em três adjetivos.
  2. Pergunte-se (e responda-se!) o seguinte: é assim que eu falo?
  3. Imagine seu leitor ideal. Detalhe bem como é esse leitor. Então, escreva para esse leitor e somente para ele.
  4. Liste cinco livros, contos, crônicas, sites, blogues, enfim, textos que você gosta de ler. Dispense algum tempo analisando essa lista. Em que os cinco são parecidos? Como diferem entre si? Qual aspecto da maneira como são escritos chama sua atenção? Você aspira a escrever como esses cinco textos elencados?
  5. Liste suas influências culturais e artísticas. Você as utiliza em sua escrita ou tenta evitá-las?
  6. Pergunte a outras pessoas por sua voz, por seu timbre. Anote as respostas recebidas.
  7. Escreva livremente. Apenas endoide, enlouqueça, sem freios. Esteja confortável nesse momento e apenas escreva. Ao final, distancie-se um pouco, então volte e leia tudo que escreveu a fim de perguntar-se: eu publico ou pretendo publicar algo assim?
  8. Leia algo que você escreveu recentemente e pergunte-se: eu leria algo (escrito) assim? Em caso negativo, você deve aprimorar seu timbre, sua dicção, sua voz.
  9. Pergunte-se: eu aprecio/gosto/me divirto enquanto escrevo? Se está difícil, se parece trabalho(so), então provavelmente você não está escrevendo de maneira autêntica. (Note bem: nem todo escritor gosta do ato de escrita, mas é uma pergunta valiosa para a maioria de nós.)
  10. Preste atenção à sua sensação perante a publicação. Nervosismo? Medo? Ansiedade? Ótimo! Você está indo bem, esse é o caminho. Se você estiver afogando-se em calma, algo está errado, você não está se arriscando, não está vulnerável, não está se escrevendo. Escreva algo perigoso, escreva você. O medo é bom, faz com que você queira escrever algo que importa.
Só com nossa dicção, com nossa voz, com nosso timbre, com nossa autenticidade conseguiremos fãs dedicados e que amam honestamente nossa obra. Lembre-se de desenvolver seu estilo após encontrá-lo.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Dica de escrita

Há quatro tipos textuais. É necessário conhecê-los e distingui-los a fim de escrevermos precisamente o que queremos. Mas só quatro? Sim, só quatro. Não nos referimos aqui a gêneros textuais, esses são infinitos, conforme a demanda prática.
  • Narração
  • Tempo-modo verbal predominante: pretérito perfeito (e mais-que-perfeito) do indicativo.
Trata-se do texto em que se narra algum ocorrido, tornando-o conhecido e presente ao ato de leitura. Dá-se a conhecer um fato narrativo, situado, quer dizer, com data e local, além de personagens envolvidos na ocorrência. A narração trama e enlaça, envolvendo o antes e o depois numa sucessão de acontecimentos. Como se trata do encadeamento e fluência entre sucessivos fatos narrativos, conjunções e locuções conjuntivas (conectores) são fundamentais, bem como anáforas (retomadas) e advérbios e locuções adverbiais (principalmente temporais). Afirmações abundam. Divide-se em dois registros ou duas camadas: narração e narratário. Narração é o ato propriamente; narratário é aquilo que se dá a conhecer através da narração. Assim, há sempre um narrador, mesmo que despersonalizado e neutralizado. É, fundamentalmente, o texto (da percepção) do tempo (da vida).
  • Descrição
  • Tempo-modo verbal predominante: presente e pretérito imperfeito do indicativo.
Trata-se do texto em que se descreve algo estático ou dinâmico, ou seja, um objeto, um local, predominando verbos de estado (ser, estar, parecer etc.), ou um processo, predominando verbos de movimento (aproximar, afastar, reduzir, ampliar etc.). Costuma-se dividir em objetiva e subjetiva, mas nós sabemos que não existe essa pretensa objetividade isenta de escolhas e influências, portanto toda descrição marca seu autor, em graus diversos de explicitação, mas sempre resta algo da preferência do descritor. Figuram muitas orações predicativas (predicado do sujeito e do objeto), também chamadas orações atributivas, bem como sintagmas nominais, adjetivos, apostos, complementos e adjuntos circunstanciais (lugar, tempo, modo), enumerações, comparações e símiles. É, fundamentalmente, o texto (da percepção) do espaço (da vida).
  • Dissertação (exposição + argumentação)
  • Exposição
  • Tempo-modo verbal predominante: infinitivo e tempo-modos intemporais, ocasionalmente pretérito imperfeito do indicativo (quando descrevendo processos).
Trata-se do texto em que se informa quem lê. Encontram-se aqui apresentações, exposições e divulgações. Prevalece, nesses textos, a claridade, a objetividade, a precisão (léxica e sintática), conectores, definições, classificações, comparações (e demais figuras de inteligibilidade), enumerações e exemplos. É, fundamentalmente, o texto (da percepção) do mundo (inanimado).
  • Argumentação
  • Tempo-modo verbal predominante: presente do indicativo.
Trata-se do texto em que se convence quem lê. Manifestos, cartas abertas, chamadas (à ação) compõem a paisagem. Argumentos abundam, conectados logicamente, usualmente em cadeias de causa e consequência, também se mobilizam cenários hipotéticos, experimentos de pensamento e exemplos a fim de arguir sobre um tema. Citações e referências ocorrem frequentemente, além de toda sorte de apelos. É, fundamentalmente, o texto (da percepção) do mundo (animado).
  • Injunção
  • Tempo-modo verbal predominante: imperativos (afirmativo e negativo), ocasionalmente infinitivo e futuro do presente do indicativo.
Trata-se do texto em que se instrui e orienta (as ações de) quem lê. Listas, comandos e ordens constituem a maioria dos textos. Vocabulário e sintaxe simples e diretas, detalhamento de preparações e procedimentos, por vezes imagens ilustrativas. É, fundamentalmente, o texto (da percepção) da ação (dos outros).

sábado, 21 de setembro de 2019

Dica de escrita

Estruturemos nossa escrita. Escrever deve ser divertido e prazeroso, contudo lembremos tratar-se de nosso ofício – compromisso, empreitada séria. Um texto estruturado apropriadamente conquista a leitura. Sem dúvidas todo escrever escreve-se a si mesmo, ou seja, cada produção exige especificidades próprias, não há fórmulas ou receituários (muito menos mágicos), como canta o ditado: cada um é cada um. Respeitemos a singularidade da escrita. Não se há de temer o infindo aprendizado, resta-nos aprender.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Dica de escrita de George Orwell

Todos os escritores são vaidosos, egoístas e preguiçosos … Escrever um livro é uma luta desgastante, como passar por um longo surto de alguma doença dolorosa. Escritores nunca poderão escrever um livro se não forem conduzidos por algum tipo de demônio (ao qual possam resistir ou entender).

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Dica de escrita

  • Total de palavras por dia de trabalho
É muito necessário conhecermos o gênero em que nossa escrita se insere e isso inclui o tamanho do texto típico para esse gênero. Com essa medida temos um objetivo claro e bem delineado diante de nós, guiando nosso trabalho facilmente. Digamos que nosso objetivo são 30000 palavras em 60 dias: isso nos dá 500 palavras por dia, sete dias por semana (sem faltas). Parece muito quando pensamos inicialmente, mas a clareza do objetivo diário nos orienta e sinaliza o sucesso em cada passo da jornada.
  • Metas de curto prazo
Objetivos semanais – assim como a quantidade diária de palavras – nos darão a disciplina necessária para sermos bem-sucedidos. Editar também é progredir, não haja dúvidas, porém editar vem depois de escrever, jamais se poderá editar aquilo que ainda não existe. É nesse momento que muitos de nós falhamos. Trata-se de disciplina. Sejamos intransigentes com as metas e objetivos. Nada de prorrogar prazos e alterar datas.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Dica de escrita

Alguns apontamentos para iniciarmos nossa escrita.
  • Decidamos (sobre) o que escrevemos
Sobre o que estamos falando? Qual é nosso argumento? A quais questões universais nos referimos? Sem receio de dispensar energias para este trabalho, é preciso saber qual nosso assunto.
  • Tenhamos uma meta de produtividade diária
O hábito vence o desafio. Persistência é a chave para sairmos bem-sucedidos dessa empreitada. Não é preciso imitar os grandes nomes, com milhares de palavras por dia, laudas e mais laudas. Por volta de 500 palavras ao dia já compõe um ritmo suficiente para preservar o movimento dentro das possibilidades de nossos cotidianos atribulados. Não importa escrever muito, importa escrever sempre.
  • Determinemos um horário diário para o trabalho
Tenhamos um compromisso diário conosco e com nossa obra. A consistência de nossa prática estimulará nossa criatividade. E se vierem dias ruins, escritas árduas, ásperas, palavras engasgadas… Que venham! Amemo-nos sem temor. Os grandes nomes de todos os tempos não amavam (nem odiavam) escrever, eles apenas escreviam – eis o segredo.
  • Escrevamos no mesmo local todo dia de trabalho
A mente carrega resquícios rituais até hoje: os mesmos movimentos ao nos banharmos e ao escovarmos os dentes, o mesmo ritmo de caminhada, as mesmas preferências. Respeitemos nossa escrita por quão sagrada ela é: tenhamos um espaço para avisar a nosso sistema nervoso central que agora é hora de escrever e nada mais. Mesmo uma escrivaninha no quarto, uma mesa na cozinha, um local separado especialmente para a atividade durante o tempo previsto é tudo de que precisamos para soltar a criatividade na corrente sanguínea. Afinal, escrever é também uma disciplina corporal (além de mental) e só o hábito nos trará o resultado desejado.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Dica de escrita

Aqui vão sete questões com as quais não devemos nos importar no primeiro rascunho (também chamada primeira versão) de nossa escrita.
  • Qualidade
Não precisamos escrever, de primeira, com o vocabulário mais adequado ou a melhor construção frasal. Ao contrário, tratando-se do primeiro rascunho, devemos apenas colocar as ideias para fora e isso basta. Sim, entramos a escrever porque nosso gosto é afinadíssimo, contudo agora não é momento para aplicá-lo. Toda primeira versão é lixo – lembremos sempre dessas palavras de Hemingway. Notemos bem: a primeira escrita não presta e que isso fique claro! Reescreveremos e será um momento tão interessante quanto o gesto inicial. Lembremos: o primeiro rascunho é, no pior dos casos, a pior versão do escrito.
  • Dicção e estilo
Já conversamos sobre dicção e estilo noutros momentos. Precisamente: o momento para determinar o tom, a voz, as preferências lexicais e as estruturas sintáticas não é o primeiro rascunho. Ignoremos de todo esses elementos e apenas despejemos as palavras feito metralhadoras cuspindo chumbo quente. A primeira versão serve para revelar a obra que virá quando, nas revisões posteriores, o artista aplicar-se com afinco ao detalhe.
  • Estrutura
Fascina, sem dúvidas, um texto com boa arquitetura, bela estrutura, todas as partes no lugar. Todavia, é impossível planejar a estrutura sem construí-la: mãos à obra. Alguns furos aparecerão aqui e acolá, em futuras revisões (e edições estruturais) corrigiremos essas ranhuras naturais da superfície textual primeira. Escrevamos como nos sentirmos mais confortáveis para tal, seja no fluxo caótico das ideias, seja na ordem prescrita ao texto por nós mesmos. É bastante comum alterar a estrutura em reescritas posteriores, a fim de manipular as expectativas do leitor ou visando a outra qualidade do texto. Joguemos areia no terreno para, depois, construirmos nossos castelos.
  • Descrição
Falemos da microestrutura do texto: se descrições não fluem naturalmente de nossos dedos, deixemos para depois. É possível procrastinar ao aperfeiçoar descrições no momento errado. Mais tarde, nas releituras e edições, reescritas e modificações, perceberemos os benefícios da ausência estratégica de descrições. O primeiro rascunho é um esqueleto, a carne vem depois.
  • Tema
Temas são, indiscutivelmente, o fator de maior fascínio da leitura – especial atenção quando se trata de ficção. As relações com a vida, com a experiência, com a morte, o tempo, as relações, tudo isso é fascinante e instiga nossa leitura de tantas escritas encontradas mundo afora. Entretanto, não nos preocupemos com nossos temas na primeira versão, corremos o risco de forçar temas onde e quando não convêm. Como diz a dica de Bernard Malamud: no primeiro rascunho descobrimos sobre o que falamos. Depois os temas virão.
  • Detalhes
Ignoremos os mecanismos de pesquisa e a proliferação de abas de navegador. Ignoremos a pesquisa, fizemo-la durante o planejamento exatamente para separá-la da escrita. Não é hora de escrever certo, é hora de escrever.
  • Seguir o planejamento à risca
Entendamo-nos bem: planejar é necessário. O planejamento auxilia sobremaneira na escrita turbulenta e difícil da primeira versão. No entanto, seguir uma estrutura pré-planejada com excessivo rigor desestimula a criatividade e arruína a escritora fluidez. Estejamos abertos para a alegria da experimentação, o prazer da descoberta. Se a escrita toma outro rumo, diferente do planejado, arrisquemos. Por que não? Acaso o insucesso nos vença, o planejamento nos aguarda, firme como sempre. Como disse Terry Pratchett: o primeiro rascunho compõe-se apenas de você contando sua história a si mesmo.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Dica de escrita

Fracassar na primeira tentativa não é nada. Se pararmos aí nosso desejo de escrever (e publicar) é menos que nosso temor de falhar. Isso jamais deve ocorrer. Acreditemos em nós como outros acreditaram em si mesmos. Outros quem? Vejamos:
  • J. K. Rowling teve seu manuscrito de Harry Potter negado por 12 editoras.
  • Carrie, a estranha, de Stephen King, foi rejeitado 30 vezes.
  • Mesmo um livro fraco, porém de sucesso, como Crepúsculo, foi rejeitado por 15 agências literárias.
  • O (hoje) grande Lolita, de Nabokov, foi rejeitado por 26 editoras (as quais o publicaram depois de um editor francês ousado ter feito sucesso com a publicação).
  • … E o vento levou, de Margaret Mitchell, foi rejeitado 38 vezes.
  • William Saroyan tinha uma pilha de 76 centímetros de altura de rejeições (cerca de 6000 rejeições)!
Se alguém nos disser que é fácil escrever e publicar ou que o sucesso vem de maneira simples e imediata, esse alguém estará mentindo. Persistamos. Escrevamos. E, com tempo, tudo virá a termo.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Dica de escrita

Precisamos ler bem para escrever bem. Quanta facilidade nessa empreitada! Com pouquíssimo dinheiro conseguimos uma graduação – com especialização, mestrado e tudo o mais! – ao alcance da mão (e dos olhos), basta frequentarmos alguma livraria. Todos os grandes mestres de ontem e de hoje nos esperam a custos irrisórios se pensarmos quanto engenho e arte há naqueles papeis impressos.
Leiamos. Sim, leiamos. Leiamos com atenção e dedicação. Leiamos como escritores.

domingo, 8 de setembro de 2019

Dica de escrita de Bernard Malamud

O primeiro rascunho serve para descobrir sobre o que é sua história.

sábado, 7 de setembro de 2019

Dica de escrita de Ernest Hemingway

Não desanime porque há muito trabalho mecânico em escrever. Existe, e você não pode fugir disso. Reescrevi a primeira parte de Adeus às armas pelo menos cinquenta vezes. Você precisa trabalhar nisso. O primeiro rascunho de qualquer coisa é merda. Quando você começa a escrever, recebe todo o impulso e o leitor não recebe nada, mas depois que você aprende a trabalhar, é seu objetivo transmitir tudo ao leitor, para que ele se lembre não da história que ler, mas de algo que aconteceu com ele.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Dica de escrita de George Orwell

• Evitemos palavras longas quando as curtas servirem.
• Se possível cortar algo do texto, façamo-lo.
• Utilizemos a voz ativa em lugar da passiva.
• Evitemos lugares-comuns e clichês.
• Substituamos jargão especializado por vocabulário simples e compreensível.
• Evitemos escrever algo tosco quebrando quaisquer regras sem remorso.
Não há receitas para escrever, é verdade – mas não custa nada beber um pouco da sabedoria dos que já trilharam, com sucesso, o caminho que estamos buscando.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Dica de escrita

Sejamos planejadores ou improvisadores, é necessário planejarmos essa escrita. Certamente, não há uma maneira correta de escrever, mas há diretrizes úteis para essa empreitada. Aí vão cinco diretrizes sobre o planejamento.

1) Não planejar.
Nosso maior erro ao começar um projeto. Levar-nos-á ao desconhecimento da premissa, afastando-nos do argumento, impedindo-nos de escrever com mestria. Mesmo um improvisador de primeira mantém por perto um caderninho com anotações das ideias e temas centrais da obra a improvisar. Uma premissa (em ficção) é o resumo da história em uma frase: os personagens principais, seus objetivos e os obstáculos em seus caminhos. Quase como uma notícia: quem, o que, quando, onde, como e por quê. Com esse contorno [outline] evitaremos muitas dificuldades: furos e complicações na trama, histórias paralelas irrelevantes, entre outros problemas recorrentes.

2) Ignorar a importância dos personagens.
Então, planejamos um enredo cheio de curvas e nuances, reviravoltas e torções. Estamos prontos! Bem… Ainda não. Repleta-se, todo bom romance, de personagens memoráveis. Eles animam a trama e vivem a história. Mesmo em narrativas as mais enredadas, os personagens são marcantes e desenvolvem-se junto aos acontecimentos: desenvolvimento de personagem e de enredo correm paralelamente. Quando planejarmos nossa ficção, planejemos também nossos personagens: quais suas funções, como se relacionam, o que os motiva etc. Personagens interessantes dão sangue e movimento ao enredo. Se ambos foram planejados e estão vivos, ainda melhor será nossa escrita!

3) Não pesquisar.
Sim, pesquisar. Não precisamos escrever uma tese de doutorado sobre qualquer assunto para ficcionalizarmos, porém devemos pesquisar minimamente os elementos a utilizar. Mesmo se não estamos a escrever uma ficção histórica ou sequer realista, pesquisar é crucial – pesquisar nossas influências e interesses, curiosidades e variedades. Com boa pesquisa, evitaremos clichês, lugares-comuns e estereótipos, especialmente personagens diferentes de nós, seja pelo sexo, gênero, classe socioeconômica, alinhamento político, personalidade ou ainda outro aspecto.

4) Escolher a perspectiva errada.
Consagrou-se, em cada gênero ficcional, alguma maneira específica de narrar: primeira pessoa em histórias de detetive e enredos policiais, terceira pessoa (onisciente) em fantasia e assim por diante. Não devemos nos submeter a convenções e sedimentações históricas, mas é sempre bom levar em consideração o que foi testado e bem-sucedido. Perguntemo-nos: a protagonista é tão bem-humorada que seria uma perda lastimável não ver o mundo por seus olhos? Ou há tantas personagens interessantes que é um desperdício fugir da visão onisciente? Devemos escolher por boas razões, questionando-nos quais efeitos almejamos.

5) Ignorar o leitor.
Queremos escrever algo universalmente agradável. Isso, infelizmente, é impossível. Ignorar essa impossibilidade nos levará a produzir uma aberração ilegível. Consideremos nosso alvo, imaginemos nosso leitor ideal (porque elaborado apenas em nossas ideias). Isso basta. Sim, é possível termos lido um tão grande bocado de tudo que acabamos por pensar em escrever essa colcha de retalhos estilísticos. Contudo, escrever não é ler. Compreender nosso público – em linhas gerais, tudo aqui é liberdade eficaz – trará mais pesquisa (leitura), a qual felizmente nos dará estímulo (todo bom escritor é grande leitor) e escopo, compreensão sinóptica (saberemos o que já foi feito e em que estamos repetindo ou inovando). Nossa sanidade – e de nossos leitores – agradecerá nosso esforço.