domingo, 17 de setembro de 2023

Sobre um parágrafo de Gustave Flaubert

Sobre Mário Quintana

Mesmo que não comunique nada, o discurso representa a existência da comunicação; mesmo que negue a evidência, afirma que a fala constitui a verdade; mesmo que se destine a enganar, especula com a fé no testemunho. […] O inconsciente é a parte do discurso concreto, como transindividual, que falta à disposição do sujeito para restabelecer a continuidade de seu discurso consciente. (Lacan, 1998, cap. “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise — 1953”, pp. 253, 260)

Literatura, subjetivação e o âmbito simbólico

O que a poesia faz ao sujeito? Essa pergunta eminentemente moderna transforma as ordens poéticas até então estabelecidas (ordenações estéticas e epistemológicas). A partir dessa questão, compreende-se que o poema torna-se em um plano simbólico de subjetivação, ou seja, um dos âmbitos de produção de subjetividade (Lacan, 1998, pp. 292, 302 et seq., 2021, cap. Ⅴ et seq.). Misturando os sujeitos — sujeito poético (ou diegético), sujeito poeta (ou autor), sujeito leitor —, a poesia não se reduz ao seu tema ou assunto1 e atua na subjetividade em geral.

domingo, 10 de setembro de 2023

Ritos, de Nicanor Parra, traduzido por mim

Ritos

De Canciones rusas (Santiago: Universitaria, 1967).

Toda vez que retorno
para meu país após uma longa viagem,
a primeira coisa que faço
é perguntar pelos que morreram:
todo homem é um herói
pelo simples fato de morrer
e os heróis são nossos mestres.

E em segundo lugar, pelos feridos.

Somente após, não antes de cumprir
esse pequeno rito fúnebre,
eu me considero com direito à vida:
fecho meus olhos para enxergar melhor
e canto com rancor
uma canção do começo do século.

sábado, 9 de setembro de 2023

Sobre Mario Quintana

Untitled

Escreveu Buffon que o cavalo é um nobre animal. Bobagem… Nobre animal é o poeta!1

Mario (de Miranda) Quintana, 1906–94, foi sofisticado demais para o modernismo paulistano. Exercitou aquela poética do cotidiano, da singeleza aguda que se celebra, hoje, na memória da pena de William Carlos Williams e que, a partir desse poeta, influenciou da Beat Generation até a New York School, de Robert Lowell e Allen Ginsberg a Charles Olson, Robert Creeley e Denise Levertov, passando pela San Francisco Renaissance de Gary Snyder. Com seus versos fortemente objetivos, carregados da concretude das coisas, aproximou-se da sofisticação dos extensos símiles da Ilíada, bem como da justaposição de imagens da poesia do leste asiático.

domingo, 3 de setembro de 2023

Sobre William S. Burroughs

Estou aqui para lhe mostrar algumas das coisas que você chama de realidade.
William S. Burroughs —

Em um texto de 19731, Burroughs desenvolveu este mito: as palavras seriam um tipo de organismo viral; esse organismo parasitaria seu hospedeiro portador (o macaco anterior ao signo) e causaria uma mutação biológica caracterizada por uma “modificação das estruturas da garganta interna”; o efeito: estrangulamento, “frenesi sexual”, alta mortalidade e transmissão genética, por meio das fêmeas sobreviventes, da “nova estrutura da garganta”.

Essa fábula relembra a violência que prende o ser falante à socialidade da troca verbal, mas deixa na glote, como o rastro de um remorso “biológico”, o nó da angústia que está na origem do impulso de escrever (para trabalhar nesse nó e nessa fábula). Em ambas as extremidades da história da fala, há um estrangulamento traumático. Por um lado, o drama do corte inaugural que funda a socialidade tagarela da espécie; por outro, o controle dos “sujeitos” pelos discursos normalizados, o emaranhamento dos corpos na rede da gramática, a submissão aos nomes que constituem a alucinação conhecida como “realidade”.

O mito burroughsiano do “vírus da linguagem” é um tipo de logogonia patética. Retrata a doença que transforma o pequeno homem em um animal falante, arrancado do nada da coisa silenciosa emparedada pela necessidade (fome), mas jogado ao mesmo tempo no inferno da “antropofagia comunitária”.

Breves anotações sobre o Barroco retiradas de um diálogo com um amigo

Percebo que o domínio da linguagem me convoca nas leituras “inúteis” (agora) dos barrocos e dos oradores antigos. A maneira como não fingem sinceridade, mas admitem a artificialidade do ofício literário sem, contudo, mentirem, convoca-me. Elaboram uma verdade mais universal porque mais literária, trabalham o material incandescente do vulcão visceral da vida. Nem todos escreveram rebuscado, porque não é isso que importa, ainda que alguns preferiram, sim, as palavras retumbantes. Importava um modo próprio de significar e simbolizar essa bagunça chamada vida, mas significar e simbolizar querem dizer comunicar, dar forma transmissível, comunicável, comunitária.