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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Werner Hamacher. Lingua amissa. Sobre el mesianismo del lenguaje de la mercancía.

Lingua amissa. Sobre el mesianismo del lenguaje de la mercancía.

Werner Hamacher. Lingua amissa. Sobre el mesianismo del lenguaje de la mercancía. Traducción: Marcelo G. Burello. Buenos Aires: Miño y Dávila, 2013. [Reproducido aquí sin autorización.]

“El lienzo habla”.

Es Marx quien dice que el lienzo habla. Al decirlo, él habla el lenguaje del lienzo, y lo habla “desde el alma”, tal como afirma que lo hacen los economistas burgueses que critica. Pero en el lenguaje de Marx, ese lenguaje del lienzo a la vez se traduce al lenguaje analítico —e irónico— de la crítica a esa misma economía política que define las categorías del lenguaje del lienzo. Es así que Marx habla, hemos de suponer, dos lenguajes: aquel en el que el lienzo se expresa, se teje y se entrelaza con telas similares; y aquel otro lenguaje que habla sobre el lienzo y más allá de él, distiende su textura, analiza su relación con otros tejidos igualmente distendidos, y lo ovilla en otro tejido categorial. ¿Pero realmente se trata de dos lenguajes, de dos estructuras lingüísticas distintas, o apenas de la duplicación de una sola? La crítica de la economía política, ¿habla otro lenguaje, uno nuevo, o sólo uno de los dialectos del lenguaje del lienzo? ¿Acaso la duplicación de un lenguaje no corresponde a la estructura de ese lenguaje? ¿La crítica de la economía política no está bajo el hechizo de esa misma economía? Si Marx ha de hablar realmente un segundo lenguaje, uno distinto, entonces este lenguaje nuevo, marxiano o marxista, al menos tiene que cumplir una condición que el lenguaje del lienzo no puede cumplir: en él por lo menos debería revelarse una categoría, una única categoría, que en esa economía política no tiene lugar, y que aunque puede sugerirse y hasta dar testimonio en ella, no puede pertenecer al repertorio, al macho y hembra de su lenguaje mismo. Esta otra allocategoría podría —y hasta debería— poseer una forma absolutamente extraña, inconmensurable respecto de las categorías de la economía política, y acaso ni siquiera sería una forma. Una que no sería el lenguaje “de” el lienzo sino, por ejemplo, un “lenguaje” en el que por primera vez puedan darse un lienzo y “su” lenguaje. Tal vez no algo elocuente, tal vez algo que ni hable o que no simplemente hable, y que, aun sin hablar, así y todo promete un lenguaje anticipándose a sí mismo.

domingo, 10 de setembro de 2023

Ritos, de Nicanor Parra, traduzido por mim

Ritos

De Canciones rusas (Santiago: Universitaria, 1967).

Toda vez que retorno
para meu país após uma longa viagem,
a primeira coisa que faço
é perguntar pelos que morreram:
todo homem é um herói
pelo simples fato de morrer
e os heróis são nossos mestres.

E em segundo lugar, pelos feridos.

Somente após, não antes de cumprir
esse pequeno rito fúnebre,
eu me considero com direito à vida:
fecho meus olhos para enxergar melhor
e canto com rancor
uma canção do começo do século.

domingo, 3 de setembro de 2023

Sobre William S. Burroughs

Estou aqui para lhe mostrar algumas das coisas que você chama de realidade.
William S. Burroughs —

Em um texto de 19731, Burroughs desenvolveu este mito: as palavras seriam um tipo de organismo viral; esse organismo parasitaria seu hospedeiro portador (o macaco anterior ao signo) e causaria uma mutação biológica caracterizada por uma “modificação das estruturas da garganta interna”; o efeito: estrangulamento, “frenesi sexual”, alta mortalidade e transmissão genética, por meio das fêmeas sobreviventes, da “nova estrutura da garganta”.

Essa fábula relembra a violência que prende o ser falante à socialidade da troca verbal, mas deixa na glote, como o rastro de um remorso “biológico”, o nó da angústia que está na origem do impulso de escrever (para trabalhar nesse nó e nessa fábula). Em ambas as extremidades da história da fala, há um estrangulamento traumático. Por um lado, o drama do corte inaugural que funda a socialidade tagarela da espécie; por outro, o controle dos “sujeitos” pelos discursos normalizados, o emaranhamento dos corpos na rede da gramática, a submissão aos nomes que constituem a alucinação conhecida como “realidade”.

O mito burroughsiano do “vírus da linguagem” é um tipo de logogonia patética. Retrata a doença que transforma o pequeno homem em um animal falante, arrancado do nada da coisa silenciosa emparedada pela necessidade (fome), mas jogado ao mesmo tempo no inferno da “antropofagia comunitária”.

terça-feira, 30 de maio de 2023

Uma tradução de C. Milosz

Castelo de um sonho

Czeslaw Milosz

A cidade era semelhante a um castelo, compacta, densa, com várias camadas, como os edifícios de Piranesi. Predominavam os tijolos vermelhos — significavam civilização — e, do outro lado do rio, começava a selva. Ele marchou rapidamente; seus companheiros, um ele e uma ela, mal conseguiam acompanhar. De repente ele percebeu como a abstração se transforma em realidade: os aromas picantes das lojas, o vapor sedutor das cozinhas que passavam, as enormes tábuas de presuntos, as tabernas cheias de bebedores de vinho… Ah! Devolver-se aos sentidos, apenas isso e nada mais.

Outra tradução de S. Beckett

O penhasco

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Minha tradução de S. Beckett

Eu desisti antes de nascer

terça-feira, 29 de março de 2022

Comentário leigo a Bava Batra 4a:3

Bava Batra 4a:3

Herodes disse a ele: “eu sou esse. Se eu soubesse que os Sábios eram tão cautelosos, não os teria matado. Agora, qual é o remédio deste homem?”, ou seja, o que posso fazer para me arrepender de minhas ações errôneas?

Bava ben Buta disse-lhe: “aquele que extinguiu a luz do mundo ao matar os sábios da Torá, como está escrito: ‘Porque o mandamento é uma lâmpada e a lei [ou seja, a Torá] é luz’ (Prov. 6:23)1, deve ir e ocupar-se da luz do mundo, isto é, do Templo, como está escrito em relação ao Templo: ‘E todas as nações fluirão para esse [lugar]’ (Isaías 2:2)2, [a palavra] ‘fluirão’ aludindo à [palavra] ‘luz’.”

Comentário leigo

Como Bava relacionaria as palavras “fluirão” e “luz”? Isso se deve à estrutura das palavras nas línguas semitas (línguas como o hebraico, o aramaico, o árabe e outras).

As palavras nas línguas semitas compõem-se a partir de uma raiz consonantal, não a partir de algumas sílabas com vogais e consoantes como em português (e todas as línguas neolatinas). O que une todas as palavras relacionadas à escrita, no português, é o bloco escr-, como em escritor, escrevente, escritura, escrever, etc.

Nas línguas semitas, o processo é diferente: as consoantes k, t e b compõem todas as palavras ligadas à escrita e a documentos escritos, como livros, vide os seguintes exemplos em hebraico: kāṯaḇti (כתבתי): “eu escrevi”, kattāḇā (כתבה): “artigo”, miḵtāḇ (מכתב): “carta-postal”, miḵtāḇā (מכתבה): “escrivaninha”, kəṯīḇ (כתיב): “soletração”, taḵtīḇ (תכתיב): “prescrito”, məḵuttāḇ (מכותב): “destinatário”, etc.

Além disso, o sistema de escrita hebraico registrava somente as consoantes das palavras. Apenas a partir do século Ⅸ E.C. desenvolveram-se sinais diacríticos que se adicionam às consoantes hebraicas para indicar as vogais das palavras — pequenos pontos e traços adicionados acima e abaixo das consoantes, chamados nəqudōt (singular: nīqqūd).

Daí Bava poder relacionar as duas palavras (“fluirão” e “luz”), pois continham as mesmas consoantes nos dois versículos citados por ele (wə·nā·hă·rū — וְנָהֲר֥וּ — nêr נֵ֣ר formando a raiz consonantal n-r, explícita em nêr e contida em wənāhărū, assim uma palavra estaria dentro de outra, em seu interior, compondo seu sentido íntimo, isto é, de dentro, não oculto, mas literalmente — à letra — interno). Eis porque a hermenêutica judaica é uma hermenêutica eminentemente da letra e da palavra, não cedendo ao império do significado, senão abraçando os indícios deixados pelos significantes em seu rastro.


  1. nêr (נֵ֣ר): “lâmpada” (substantivo masculino singular), miṣ·wāh (מִ֭צְוָה): “comando, mandamento” (substantivo feminino singular), wə·ṯō·w·rāh (וְת֣וֹרָה): conjunção aditiva “wə” + “Torá” (substantivo feminino singular), ’ō·wr (א֑וֹר): “luz” (substantivo comum de dois gêneros singular).↩

  2. wə·nā·hă·rū (וְנָהֲר֥וּ): conjunção “wə” + “fluirão” (verbo de tema leve, isto é, simples, chamado tema qal (קַל), modo conjuntivo, aspecto perfectivo, conjugado em terceira pessoa plural comum de dois gêneros).↩

domingo, 16 de janeiro de 2022

Quinto prólogo de Aurora, de F. Nietzsche

Referência completa

Nietzsche, Friedrich. Prólogo. 5. In: Nietzsche, Friedrich. Aurora. Tradução, notas e posfácio: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. (E-book. Não paginado.)

— E finalmente: por que deveríamos dizer tão alto e com tal fervor aquilo que somos, que queremos ou não queremos? Vamos observá-lo de modo mais frio, mais distante, com mais prudência, de uma maior altura; vamos dizê-lo, como pode ser dito entre nós, tão discretamente que o mundo não o ouça, que o mundo não nos ouça! Sobretudo, digamo-lo lentamente… Este prólogo chega tarde, mas não tarde demais; que importam, no fundo, cinco ou seis anos? Um tal livro, um tal problema não tem pressa; além do que, ambos somos amigos do lento, tanto eu como meu livro. Não fui filólogo em vão, talvez o seja ainda, isto é, um professor da lenta leitura: — afinal, também escrevemos lentamente. Agora não faz parte apenas de meus hábitos, é também de meu gosto — um gosto maldoso, talvez? — nada mais escrever que não leve ao desespero todo tipo de gente que "tem pressa". Pois filologia é a arte venerável que exige de seus cultores uma coisa acima de tudo: pôr-se de lado, dar-se tempo, ficar silencioso, ficar lento — como uma ourivesaria e saber da palavra, que tem trabalho sutil e cuidadoso a realizar, e nada consegue se não for lento. Justamente por isso ela é hoje mais necessária do que nunca, justamente por isso ela nos atrai e encanta mais, em meio a uma época de "trabalho", isto é, de pressa, de indecorosa e suada sofreguidão, que tudo quer logo "terminar", também todo livro antigo ou novo: — ela própria não termina facilmente com algo, ela ensina a ler bem, ou seja, lenta e profundamente, olhando para trás e para diante, com segundas intenções, com as portas abertas, com dedos e olhos delicados… Meus pacientes amigos, este livro deseja apenas leitores e filólogos perfeitos: aprendam a ler-me bem! —

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

MitoLógicas #6

Certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois talvez ainda sonhamos.

E assim faremos, se estamos
em mundo tão singular
que viver não é mais que sonhar,
e a experiência, risonha,

diz que o homem que vive sonha
aquilo que é até despertar.
Sonha o rei que é rei, e vive
com este engano mandando,

dispondo e governando;
e aquele aplauso, que, breve,
recebe, no vento se escreve
e em cinzas o converte

a morte: desgraça forte!
Existe quem tente reinar
vendo que irá despertar
dentro do sonho da morte!

Sonha o rico em sua riqueza,
que mais zelos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e sua pobreza;

sonha o que inicia a destreza;
sonha o que afana e pretende;
sonha o que agrava e ofende;
e no mundo, em conclusão,

todos sonham o que são,
e que é assim ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
destes grilhões carregado

e sonhei que em estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida?: um frenesi.
Que é a vida?: uma ilusão,

uma sombra, uma ficção;
e o maior bem é bisonho,
que toda a vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são.

Pedro Calderón de la Barca

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Hermetologia #4

Nenhum excedente de sentido. Nenhum excesso. Ceder à modelagem semiótica é ceder à acumulação acelerada (e acelerando), ou seja, é imitar o metabolismo do capital(ismo). Sentido não está disponível de pronto; é diferença que vem a(o) ser. Todo sentido, assim, nunca chega a ser significado, permanece apenas redundância (in)diferente.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Hermetologia #3

A crença na (in)divisibilidade da linguagem (e do leitor, e do sujeito, e…) jaz na raiz das suposições unitarizantes. Não há nada como o ser-em-si senão não-coincidir-consigo. Seja nos vazios dos contornos da escrita, seja na mistura dos sons, a suposta unidade é sempre – como o tempo – divisível, (re)combinável, resta sempre por fazer um corte mais fundo.

Há um morfismo da realidade em si mesma (quer dizer, rumo a si mesma, de si a si), mas o que ele preserva e o que transforma? O que resguarda e o que transmuta? Trans-mudar: emudecer através. Importa, na incessante queda dos sem-partes (á-tomos), o desvio.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Hermetologia #2

Para fazer sentido é preciso haver sentido(s). Onipresença comunicacional desgasta a efetividade da realidade. O atual se torna o atual(izado). Assim, as comunicações perdem seu tele(aspecto): a distância se reduz, o campo se espreme (mas não se exprime) inteiramente no local, toda abertura se fecha. Impressão de (des)velamento – só há Maya, só há véu, ∴ samsara ≍ nirvana. Isso, certamente, deve-se, em parte, à impossibilidade de resistir à proximidade. Distância para amenizar o insuportável. Ubiquidade comunicacional acarreta transparência opaca. Se fosse possível se comunicar, não haveria (necessidade de) comunicação (∴ menos comunicação ≅ mais comunicação?). A parte difícil é encontrar o que há de comum no em comum para comunicar.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

MitoLógicas #1

Doze teses sobre a ficção atualmente

Traduzidas por Igor da Silva Livramento

Originalmente por R. M. Berry e Jeffrey R. Di Leo

  1. O presente da ficção é a intersecção de tudo o que a ficção tem sido e tudo aquilo em que se tornará.Formas de escrita e de leitura já estão sempre ligadas aos seus desenvolvimentos e tradições históricas, no entanto, são continuamente arrastadas para um futuro repleto de possibilidades. Poderíamos até dizer que a mudança e a temporalidade são as constantes no presente da ficção, uma caracterização que nos deixa perplexos com a própria palavra “presente”. Em comparação com o longo passado da ficção e seu futuro aberto, o presente parece relativamente breve e instável, com quase qualquer durabilidade, mas isso não diminui seu valor. Pelo contrário, o valor pode muito bem não existir em qualquer outro lugar. Isto é, se a ficção ainda tiver significado para nós, então terá necessariamente agora, no presente, todo outro significado sendo latente ou potencial. Por outras palavras, o transitório, irrealizável presente pode simplesmente nomear a condição de existência contínua da ficção, distinguindo-a de tudo o que, como o épico, tem apenas um passado ou, como a justiça, apenas um futuro. Como o espaço elusivo onde o passado encontra os nossos sonhos e desejos, o presente da ficção estende a promessa de mudança a todos os que a sofreriam.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Hermetologia #1

A crítica conclui, isto é, dá-nos a certeza de que a crítica é absolutamente irrefreável. Em outras palavras: é impossível evitar interpretação. O mero fato de haver interpretação põe um resto (ou seja, fundamento) ininterpretável. Daí se compreende que o segredo não se divide em revelação e manifestação, ou seja, verdade e comunicação. O segredo é segredar. O enigma é enigmático. Assim a crítica, isto é, o segredo, o mistério, o enigma, é o silêncio do qual emerge, e para o qual retorna, toda linguagem. Jaz aquém (além): é absolutamente indizível (e impensável, e irrepresentável, e…). Só sabemos que (não)existe porque (não)podemos (não)senti-lo daqui.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Dez dicas de Fabián Casas para quem quer escrever ficção

Meu amigo Duncan sempre me diz que pode ver o futuro. “Isso ou aquilo vai acontecer com você”, ele me diz e invariavelmente acerta. Lembro-me de uma vez em que Leonidas Lamborghini, recém chegara do México, disse-me que a poesia tinha um poder oracular. Agora meu amigo Duncan tem que terminar um livro e me pediu “algumas dicas para escrever quando não consigo escrever”. Portanto, estas anotações são uma carta a um jovem profeta. Lá vão, Duncan.
  1. Escreva como se seu leitor não fosse surgir enquanto você estiver vivo, isso é libertador.
  2. Abandone qualquer reivindicação de originalidade. Pegue um autor que você gosta e copie-o até deformá-lo.
  3. Se o que você escrever parecer muito literário, é possível que você esteja exportando uma imagem da literatura a outra: isso ajusta as imagens e é chamado de “casamento entre primos”. Explico: na história “Palo y hueso”, Saer descreve a luz que uma lanterna faz numa cabana na encosta. Isso ele não tirou da literatura, porque sentimos que Saer viveu isso.
  4. Dos escritores que se lê, não é tão importante o conteúdo nem a forma como escrevem, mas a operação mental. Assim, Armando Bo faz Isabel Sarli chegar a Paris em um trem do nosso Conurbano. 
  5. O que Bo faz é fazer a realidade funcionar a seu favor, como Aira, Rejtamn, Uhart, etc.
  6. Agora uma linguagem inclusiva está surgindo; espere até que esteja bem assada: você precisa ser politicamente concreto, mas não politicamente correto.
  7. Se você está no meio de um parágrafo porque não consegue tirar um personagem de uma sala, explique a alguém o que deseja fazer e ouça o que lhe responderão. Em seguida, coloque no papel.
  8. Para escrever, é essencial “ter experiência”, isto é, aceitar que você é mortal e que as coisas que você vê, ouve e toca desaparecerão com você.
  9. Primeiro você precisa ser um leitor criativo para depois escrever. Você precisa escrever – como Pierre Menard – enquanto lê.
  10. Sorte.

sábado, 18 de janeiro de 2020

A vivificante magia dos romances

Ao abrir um livro, mergulhamos em histórias diferentes até esquecermos da nossa. Outras vezes, descobrimos coisas sobre nós mesmos através dos personagens. Uma boa leitura pode ser o melhor refúgio para aliviar nossa alma e um antídoto contra as adversidades.

O mundo já não é maravilhoso, deixaram-no assim. Como em jet lag permanente, não pode se conectar com a realidade circundante. Freud disse que palavras e magia eram a mesma coisa a princípio. É por isso que continuamos a procurar refúgio nos livros quando a vida parece uma piada estúpida? Você, passageiro em horas baixas, abre um romance e, nas suas páginas, encontra algo como um barco salva-vidas, um alívio balsâmico à inquietação.

Os leitores vorazes sabem muito bem que livrarias e bibliotecas são um kit de primeiros socorros eficaz para a alma, como já declarado na Antiguidade. Ficção e poesia, diz a romancista Jeanette Winterson, são medicamentos que curam a ruptura que a realidade causa em nossa imaginação. De acordo com o tópico Horaciano dulce et utile, ensinam-nos deleitando-nos. O eco das palavras, o ritmo e as imagens com uma grande carga emocional inundam e ativam os recessos da consciência. Quando lemos um texto literário inteligente e sedutor, o mundo se torna mais habitável.

A biblioterapia é possível graças ao choque de identificação que ocorre no leitor quando se vê refletido na história.

Entre os benefícios da leitura de ficção, o primeiro, por mais óbvio que seja, é se conhecer melhor. Proust, que hoje poucos negariam suas aptidões para a ciência cognitiva, afirmou que cada leitor, ao ler, é leitor de si próprio. Ele acrescentou que o trabalho do escritor nada mais é que uma espécie de instrumento óptico oferecido ao outro para permitir discernir o que, sem esse livro, não poderia ver. Entrar no universo dos romances é viver várias vidas. Com um livro em nossas mãos, um terreno se abre diante de nós para experimentar diversas circunstâncias sem fim. A biblioterapia é possível graças ao choque de identificação que ocorre no leitor quando é refletido na história. Temos empatia com outras pessoas, com outras formas de pensar. Além disso, a leitura é uma emocionante aventura intelectual. Para André Gide, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, ler um escritor não era apenas ter uma ideia do que ele diz, mas é fazer uma viagem com ele.

A leitura nos coloca em um espaço intermediário: enquanto nos suspende, liga-nos à nossa essência mais íntima, um bem valioso para manter certo equilíbrio nestes tempos de distração. A leitura, disse María Zambrano, dá-nos um silêncio que é antídoto para o barulho à nossa volta. Dá-nos um estado agradável semelhante ao da meditação e nos dá os mesmos benefícios que o relaxamento profundo. Ao abrir um livro, conquistamos novas perspectivas, porque a ficção compartilha com a vida sua essência ambígua e multifacetada. Como só podemos ler um número limitado de títulos, o que estamos procurando? Obras que reafirmem nossas crenças ou que as façam vacilar? Kafka foi muito claro: só devemos entrar nas obras que mordem e perfuram: “Um livro tem que ser um machado que abre um buraco no gélido mar dentro de nós”.

domingo, 8 de setembro de 2019

Dica de escrita de Bernard Malamud

O primeiro rascunho serve para descobrir sobre o que é sua história.

sábado, 7 de setembro de 2019

Dica de escrita de Ernest Hemingway

Não desanime porque há muito trabalho mecânico em escrever. Existe, e você não pode fugir disso. Reescrevi a primeira parte de Adeus às armas pelo menos cinquenta vezes. Você precisa trabalhar nisso. O primeiro rascunho de qualquer coisa é merda. Quando você começa a escrever, recebe todo o impulso e o leitor não recebe nada, mas depois que você aprende a trabalhar, é seu objetivo transmitir tudo ao leitor, para que ele se lembre não da história que ler, mas de algo que aconteceu com ele.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Dica de escrita de George Orwell

• Evitemos palavras longas quando as curtas servirem.
• Se possível cortar algo do texto, façamo-lo.
• Utilizemos a voz ativa em lugar da passiva.
• Evitemos lugares-comuns e clichês.
• Substituamos jargão especializado por vocabulário simples e compreensível.
• Evitemos escrever algo tosco quebrando quaisquer regras sem remorso.
Não há receitas para escrever, é verdade – mas não custa nada beber um pouco da sabedoria dos que já trilharam, com sucesso, o caminho que estamos buscando.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Gravidade do exílio, de Assad Abdi [retraduzido]

Tu partes ao quinto círculo de exílio, onde a gravidade aprendeu a lidar consigo. O nome não mais te puxa para baixo. Tu derramas o passado; tu o cortas de tua pele e flutuas interminavelmente, encantado pelo tempo leve. Gravidade é um estado de ser, um reflexo da adoentada visão de alguém. Cativante é a sensação de não mais estar preso ao chão. O vento transporta-te acima das terras nas quais a história dorme escutando seus próprios mitos. Um estado de euforia engolfa teu corpo. O âmago da perfeição: onde o coração ama não um senão todos; onde tudo é uma terra estrangeira sob teus pés; onde tu pertences a todos e nenhum.

Contentamento além do querer. Tu cresces em teu mundo, não mais um andarilho. Tu abarcas o momento pelo momento e apenas por um momento. Tu agarras o outro pelo outro, não por ti mesmo. A língua manifesta a si mesma como um instrumento para tua alma tocar corações onde quer que tu alcances. Contradições de si mesmo tornam-se muitas notas soando em harmonia. Não mais o sonho; o sonho torna-se tu. Tu deixas partir. Deixas. A mente em paz com seus fragmentos, não mais uma parede sufocando suas estruturas. Não mais bordas cortando o corpo em metades diferentes. Desapego de um e de todos. O exílio torna-se uma escolha, não um estado obrigatório.