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quinta-feira, 17 de julho de 2025

Na casa

Na casa

Na casa, organismo adormecido cujos pulmões há muito cessaram de inflar, a poeira cobria móveis, janelas, até as prateleiras que seguravam relógios esquecidos. O ar cheirava agridoce de madeira velha e metal oxidado, odor impregnando roupas, pele, dias de quem ali habitava.

Nikolai passava as horas no canto da sala, onde a luz, fraca, mal alcançava as engrenagens desmontadas sobre a mesa. Um candeeiro de base rachada iluminava apenas o suficiente para ver suas mãos envelhecidas, agora trêmulas, enquanto ajustava com precisão pinças minúsculas em mecanismos que abandonaram o funcionar. Trabalhava por hábito, não por esperança.

Os relógios, cada um com seu devido defeito, espalhavam-se pela casa feito restos de velhas brigas. Um com a mola quebrada, outro sem ponteiros, outros tantos sem mostradores, engrenagens expostas qual vísceras no campo de batalha. Alguns retinham o mesmo segundo por décadas, outros tique-taqueavam sem rumo, lutando para manter a própria existência. Nikolai tratava-os em sua obstinação silenciosa, mas sabia não haver salvação para a maioria.

A casa era fria mesmo quando o sol espreitava pela janela. A madeira do piso rangia e a única companhia era o estalido ocasional de um relógio que despertava para morrer outra vez. No entanto, Nikolai não se importava; escolhera esse silêncio e o silêncio aceitara-o.

Não recebia visitas. As pessoas da vila esqueceram-no ou ignoravam-no. Fora o relojoeiro mais habilidoso da região. Seu nome carregara fama, clientes vindos de longe buscando sua meticulosidade. Agora se acabavam os relógios mecânicos, ninguém mais queria tempo tangível.

Até ela aparecer.

Fim de tarde, céu tingido de cinza, como sujo. Luz filtrada pela poeira acumulada no vidro da janela espalhava sombras pelo chão. Nikolai escutou passos na neve endurecida, o ranger seco de alguém hesitando antes de alcançar a porta. Ele largou a pinça sobre a mesa. Esperou.

Batida firme sem pressa. Não respondeu. Fazia tanto tempo que alguém batera naquela porta, quase não sabia o que fazer. Ergueu-se. Movimento lento: a idade esculpira-lhe os ossos com o peso do tempo.

Diante da porta aberta, uma mulher em um casaco escuro, capuz cobrindo parte de seu rosto, segurava um objeto grande, embrulhado em tecido pesado, contra o peito. O vento soprando atrás dela trazia flocos de neve e um frio que parecia sair de outro mundo.

— É Nikolai? — Havia cautela em sua voz.

Ele assentiu, ajustando o casaco nos ombros. Ela olhou além dele: para o interior da casa, como soubesse o que encontraria ali.

— Preciso que conserte um relógio.

Ele balançou a cabeça.

— Não faço mais isso.

A mulher permaneceu, mirando-o. Por um instante, Nikolai sentiu estar ele, não ela, na defensiva.

— Sei o que dizem — ela continuou. — Mas ninguém mais pode consertar. Você precisa tentar. — Sua voz entre súplica e determinação.

Ela adentrou a casa antes dele responder. O frio seguiu-a, e dissipou-se rapidamente quando ele fechou a porta.

Nikolai observou-a aproximar-se da mesa. Ela colocou o objeto embrulhado sobre a madeira, desdobrando o tecido com cuidado: um relógio grande, de carrilhão, com caixa de madeira entalhada e mostrador rachado. De vidro quebrado, as engrenagens pareciam emaranhadas, distorcidas pelos anos.

Ele emudeceu. Estancou sem tocar o relógio. Ela fitou-o de novo.

— Não vai se abrir sozinho. — Disse com humor, sem sorrir.

Nikolai aproximou-se hesitante: o relógio, como um animal de metal frio prestes a despertar, respondeu sob seus dedos, e um arrepio subiu-lhe pelas costas.

— Está quebrado faz tanto tempo… — Ele finalmente comentou.

— Eu sei — respondeu a mulher. — Isso não importa. Você precisa fazê-lo funcionar.

Ambos calaram-se longamente, Nikolai hipnotizado pelo relógio, ela contemplando essa cena. O vento uivava fora; dentro, apenas suas respirações misturadas ao murmúrio discreto de um único relógio na prateleira, marcando um tempo incerto.

Nikolai assentiu, mais para si que para a estranha. Ele não sabia exatamente o que o levara a aceitar. Talvez o tom na voz dela? Ou o próprio relógio, que parecia esperá-lo.

Retornou a sua estação de trabalho e aproximou o relógio. Ao iniciar a desmontagem, foi tomado por estranha familiaridade, pressentia aquele mecanismo, conhecido de algum lugar que não se recordava.

A mulher ficou atrás dele feito uma sombra enquanto ele trabalhava.

O relógio exercia presença imponente sobre a mesa de operações. A madeira quase noturna vestia-se com entalhes finos, arabescos feitos à mão, entrelaçados em formas quase orgânicas. Apesar de algumas partes desgastadas, o trabalho do entalhador carregava uma precisão que Nikolai reconheceu de perto: estava diante de uma peça de uma época em que se venerava o tempo.

O mostrador, embora rachado, mantinha os números romanos dispostos em um círculo perfeito, suas linhas precisas, quase apagadas, evocavam traços na neve prestes a desaparecer. O vidro partido formava uma rede de fissuras que remetia a um mapa. Nikolai passou os dedos pelas bordas da rachadura: não cortavam.

— Não é comum. — Murmurou ele.

A mulher não respondeu. Ele sentiu seus olhos sobre si; não se virou. Abriu a porta frontal do relógio: as dobradiças protestaram o movimento, expondo o interior empoeirado e denso. Engrenagens, cordas, molas e contrapesos que desafiaram décadas de abandono, agora presos pelas armadilhas do tempo.

Começou a sondar as peças com uma pinça: algumas estavam rígidas qual pedras, outras quase se moviam sozinhas, sensíveis ao menor toque. A corrente do badalo, ainda presa ao seu peso de bronze, oscilava ligeiramente, embora não a tocasse. Sentiu o relógio acordando.

— Quem fez isso? — Olhos fixos no mecanismo.

Ela demorou a responder. Quando finalmente o fez, sua voz veio de longe, muito longe, transportada pela neve acumulando-se fora dali.

— Não sei. Foi um presente.

— De quem?

Ela não respondeu, e Nikolai não insistiu. Ele sabia o suficiente sobre o silêncio das pessoas para entender.

Continuou a trabalhar, dedos entre engrenagens. Aos poucos, sentiu o ar ao redor do relógio mudar: uma densidade sutil, como se a sala contraísse-se ao redor dele e da peça. Quando ajustou uma das molas maiores, um som percorreu todo o relógio: sino distante. Nikolai recuou por reflexo; a peça imobilizou-se. Mirou a mulher, esperando alguma reação. Ela não se moveu.

— É o badalo. — Ele quebrou o silêncio. — Ainda está preso à engrenagem principal. Isso não deveria acontecer sem movimento.

Ela inclinou a cabeça esperando mais. Nikolai inclinou-se sobre o relógio. Sentiu o ar mais frio, embora apenas a mesma luz fraca entrasse pela janela.

Inspecionando, percebeu uma pequena inscrição entalhada na base interna do relógio, com letras tão finas que mal se distinguiam da textura natural da madeira. Aproximou o candeeiro para ler melhor.

“Tempo é tudo o que nos resta.”

Nikolai ainda entendia o idioma antigo. Mirou a frase esperando que ganhasse vida própria. Sentiu a mulher aproximar-se pela respiração quase inaudível.

— Já viu isso antes? — Ele perguntou.

— Não.

Não acreditou nela. Calou-se e voltou ao trabalho: cada engrenagem movida puxava-o mais fundo no que não sabia nomear. Um ritmo irregular feito coração tentando ser reanimado. Quando finalmente soltou o badalo, esse emitiu um tremor baixo, abafado, profundo, que ressoou pela casa.

O som trouxe algo: Nikolai sentiu uma pressão nos ouvidos, aproximação de um vento distante. Por um instante, teve a impressão de a luz da sala mudar. Não era mais cinzenta e pálida; quente, dourada, como se a neve lá fora desaparecesse.

Ele fechou os olhos com força e sacudiu a cabeça, afastando a sensação. Ao olhar para o relógio, sentiu-se observado: algo naquele mecanismo prestava atenção.

— É só um relógio. — Tentou se convencer.

A mulher recuou um passo.

— Não, não é.

Nikolai fitou-a: cogitou perguntar o que queria dizer; não conseguiu. Voltou ao trabalho.

No silêncio, o badalo oscilou surda e lentamente, enquanto Nikolai pressentia algo ou alguém prestes a acordar.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

MitoLógicas #5

Sempre mexendo no cabelo. Vídeo no banheiro, escovando os dentes; exibe vestido verde no samba na laje – bar chique, apenas imita barraco, nada do que se imaginaria pelo nome. Mexe sempre no cabelo, na selfie e no vídeo sensual. Por que tamanha ansiedade? Angústia transbordando até se sentir de longe. Sempre drinque na mão: álcool amigo inseparável. Já não tem o nariz de outrora, nem traz o busto diminuto de antanho. Algum valor há, deve haver. Sim, é isso mesmo. Há valor porque há medida. Assim, já não há nada. Só vale o que não pode valer, sem medida. Apenas cálculo, aritmética do lucro das sobras dos restos. O essencial.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

MitoLógicas #4

Aqui, na baixeza do redemoinho, nada se vê, os olhos já não servem, tudo é cinza e gira. A pele salva, aqui. Tudo me toca e, se não sei o que me resvala, ao menos intuo tal ou qual textura. Não há profundeza, no turbilhão restam apenas superfícies. Quem imaginaria situação medonha assim? Horripilante, arrepia-me toda; assustada, anseio. A profundidade é um mito visual; o braço não mede a terceira dimensão, o toque mensura o tempo até alcançar, medida do desejo. A fundura é mentira luminosa, depende dessa mania de olhos e visão. Aqui, no escuro do remoinhar, tudo é toque e carícias, agressivas, súbitas, contínuas, não importa. Rodopio e nada enxergo e assim deve ser. Enxergar é um mal e deve ser tratado como tal. Cremos naquilo que vemos, por isso nos distanciamos, mas a distância não existe. O tempo existe; escutamos. O espaço é uma ilusão da visão à qual concedemos excessivo crédito, não se pode sucumbir a isso, é tolice, besteira, bobagem. Apenas superfície. Amar também não tem fundo. Sou só isso aqui.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

MitoLógicas #3

Canto do bar; Laila; sapatilha no chão acompanhando o ritmo.

Nada agradável: ritual semanal. Como conseguir parceiro?

Necessário, sem dúvida, um parceiro.

— A vida só é boa a dois. — Diz mamãe.

Ninguém interessante, sem olhar, coração inerte; lentidão em que as damas repousam braços sobre ombros de cavalheiros e rostos se aproximam: colisão de lábios, umidades reconfortantes.

Impasse a resolver? Construir fortaleza interna; dar as mãos ao desconhecido. Vida novamente? Se falta vida, como viver?

Assusta-se com o moço de topete contemplando-a, rosto apoiado na mão, cotovelo sobre a bancada.

— Não quis… — Voz suave.

Inclina a cabeça adiante, ele corresponde. — Não, tudo bem. — Boca aberta: susto; transmutação: sorriso.

Sorrir, sabia?

— Daniel, prazer. — Mão (tão macia quanto a fala) tocando braço, apoio para encontro boca-bochecha.

— Laila, prazer. — Sorrir, sabia.

Por que ele, semblante alegre sem exibir dentes, rosto pacificado, olhar descansado? Consegue acolher o mundo, parece, abraçar, beijar a fronte, fazer cafuné.

Projeção, sim, a terapeuta disse, tudo. Pro-je-ção.

— Gosta daqui?

— Ah! Sim. — Cabeça interrompida em seu trajeto, pescoço rígido. Silêncio. — Bem, na verdade, não sei dizer. — Olhar para aonde? Certeza: não o contemplar.

— Tudo bem. — Suspirado. — Perguntei porque te vi algumas vezes aqui. — Olhar dele sobre si. Encará-lo? Barreira…!

— Então… Eu sento aqui quando venho. Gosto daqui. — Voltar rosto para o dele; amabilidade extraída a custo.

— Ninguém se senta aí durante a semana.

— Será? Como sabe disso? — Pontos se ligando: constelação incerta.

— Também venho aqui… Com mais frequência do que gostaria.

— Temos isso em comum?

— Diria que sim.

Ele encara o chão; observava as sapatilhas? Surpresa. — Não pela razão que imagina.

— Como sabe o que eu penso?

— Não sei, mas presumo.

— Então por que é, se não é por isso?

— Trabalho aqui. — Sorriso de boca enluarada; respiração diferente. Risada sufocada? Olhos nos dele: luta imensa; fitava-a decididamente. — Foi o que consegui ao sair de casa. Sabe como é, família, sangue quente, essas coisas.

— Devo saber… — Como a mão, ali? Recostar mão em mão alheia? Os dedos dele, assim, movimentos regulares, calmos, imperceptíveis. Aconchego?

— Não chega a dar um roteiro de cinema. — Mesma mudança de fôlego. Gracejo?

Ela retira sua mão debaixo das carícias da dele, volta seu rosto para sua bebida. Encontros braços-bancada e taça-boca.

— Perdoe, não quis importunar. — Levanta, alisa paletó, emborca o uísque. Prestes a partir? Gesto: retirada do chapéu que não traz à cabeça. Ela lhe toma os dedos da destra e os entrelaça aos seus. Fica:

— O paraíso… Existe? — Dela, perfura-lhe, o olhar.

— Num encanto desconhecido e inexplicável. — Aproxima-se, acolhe-a, braços cobrindo-a quase inteira.

Ela, cabeça apoiada em seu peito. Murmúrio. — Também te vejo. Sempre.

Luzes frenéticas, dança intensa, no ritmo agitado da canção da moda.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Escrito em um minuto

Quando Carrie cruzou a porta do escritório carregando o pacote fechado, Thomas só teve tempo de arregalar os olhos e abrir a boca.

O estrondo anunciou os cacos de vidro arremessados até a calçada em frente, donde Jolson, o ex-funcionário, contemplava a cena, acendendo um cigarro e sorrindo.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Cena do cachorro-quente

― Vou comer assim porque você sempre me tratou feito lixo mesmo. Acostumado eu já tô. É só um pouco mais de sabor.

Comeu o cachorro-quente com areia e grama sob a chuva.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Vácuo [reescrito]

Densa noite adentra rasgando o céu em escuridão. Prateado hipnotizante olhar dela, derruba do mais alto os anjos, rouba a alma ao mais forte dos homens. Suas acompanhantes, eternas amigas, reluzem também, todas distantes – fazem da imensidão obscura um recorte de brilhos.
Quase me esqueço dos frutos saturninos levando consigo toda razão. Um coração ferido e quebrado pode alcançar poesia (?) caçando e alimentando um lobo odiento e solitário, maculado com as chagas da carne de um mestre amigo crucificado.
Nunca me prometas Amor, Amor. Sei quem és e falharás em cumprir tuas vãs palavras. O doce de lábios acabará algum dia como o vento que dissemina o sexo das flores para todos os seres.

Falta coração; cresço distante do centro.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Numa noite qualquer [reescrito]

III
Foi numa tarde qualquer. Não faz muito tempo, tenho certeza. O escritório estava cheio. Lia o jornal, na confortável poltrona, observando, sorrateiro, a porta. Ayira fechou as persianas após servir-nos um bom café. Mirela, sentada no sofá, observando a estante – recheada de livros – enquanto degustava a bebida negra. Meus olhos fecharam-se pesados.

II
Meus olhos abriram vagarosos. Mirela adentrava a sala com proposta de novo caso. Pus-me de pé sem hesitar – senti meu corpo extremamente pesado – toda minha movimentação continuava indiferente a tudo que vivera até ali. Corremos para o cemitério e lá estavam os dois, diante da mesma lápide, sob a mesma chuva – recapitulação de novela. Odeio repetir o passado.

I
Trata-se de quando encontrei Ayira. Vagava solitário pelo cemitério buscando alguma conversa para a noite sem fim. Encontrei-a assim. Dezessete anos, ajoelhada, chorava tanto que a chuva sumia sob as lágrimas. Sem esforço desci a destra pouco abaixo de minha cintura, pouco inclinada, cobrindo a garota com meu guarda-chuva. Tão jovem, tão bela… Virou-se para mim, ergueu-se e abraçou-me, banhando-nos a ambos na fria água derramada dos céus. Correspondi. Nossa cumplicidade, assim nascida, não conhece limites. Voltei para meu apartamento com ela, convidei-a para um banho quente a fim de recuperar-lhe a saúde e ofereci um roupão. Meu primeiro erro.

II
A chuva torrencial recordava aquela cena triste. Eu vi a tristeza gritando do fundo daquela alma, rugindo contra a própria vida. Seus tão amados transmutados em monstruosidades, aberrações vingativas. Eu realmente não sei se deveria me importar com isso. Eu os matei. Ela insistiu, meteu-se em meu caminho, recebeu um corte no braço, nada para preocupações. Vislumbrou seus pais mortos por minhas mãos. Permaneço incapaz de imaginar sua dor. Milena salvou-me da angustiada fúria da jovem cúmplice.

I
Minha consciência me atacou constantemente naquela fria noite. Sentamo-nos em minha cama, Ayira apoiou sua cabeça em meu ombro enquanto eu apreciava um bom vinho. Nunca me esqueci da pergunta… Aquela porcaria ainda martela meu crânio. Quiçá martelará para sempre. Por que ela desejava tanto? Tinha de ser assim? Eu nunca desejei a eternidade, mas, naquele exato momento, eu adoraria que a vida durasse para sempre.

II
Estarrecido, paralisei. Ayira correu – desapareceu no horizonte de nossos olhares. Chorava tanto quanto ou mais que no primeiro encontro. Viver o suficiente torna-se sombrio além de toda luz. Voltamos para o escritório, eu e Milena. O escritório quedou-se silente. Silêncio tão grave e sufocante que mal pude sentar. Noite após noite buscamo-la, encontrando apenas vítimas de sua loucura, todas drenadas do fluido carmesim pelos pequenos furos no pescoço. Eu não sabia o que fazer. Eu nunca soube. Jamais imaginei que isso aconteceria. Evitava pensar que repetiria o erro de Lochech. Eu realmente teria de matá-la?

I
Na mesma semana já me servia seu ótimo café, afirmava ter aprendido com a mãe. Sempre sorridente, estudava à tarde. Morava comigo, pela falta de casa e tutela. Nunca fui bom exemplo. Concedida a vida eterna, eu não havia de ser bom tutor devorando a essência pulsante dos corações na densa noite. Lochech fez-me assim, não gostaria de ver minha jovem companheira também uma criatura das trevas. Mas assim foi, ao revés do meu querer. Lochech apareceu numa noite de neve e ventanias, sequestrou Ayira e a manteve em cativeiro na igreja em que fizemos nossa única… Festa? Serei honesto. Foi um banho de sangue. Ele feriu mortalmente o objeto de minha afeição. Sem opções à minha disposição, fi-la sorrir através das lágrimas. Tornamo-nos iguais. Dois demônios santificados, filhos da mesma treva. Não! Somos melhores que ele! Não fazemos vítimas como ele nos fez!

II
Uma floresta cerca parte da igreja. Encontramo-nos. Ayira, dominada pelos inumanos instintos, gargalhava de meu esforço por proteger os humanos. Mal se dava conta, tola. Minha fraqueza trouxe-a até aqui. Lutamos. Ela matou Milena sem hesitar. Deu cabo do corpo facilmente. Absorveu suas capacidades – aprendeu bem nas silenciosas noites de caçada àqueles que não podem viver na superfície. Todavia, no ramo há mais tempo, sei como se faz um assassinato perfeito. Atravessei seu torso com minha espada de prata. Um último espirro de sangue e…

III
Arregalei os olhos. Suava profusamente. Dormi em minha confortável poltrona, enquanto Ayira perscrutava-me com seus olhos curiosos e sua beleza juvenil eternizada. Milena já havia ido embora há muito. Dia tranquilo. Tão tranquilo que adormeci sem perceber. Tomei um bom banho. Ela também. Deitamos nossas carnes imortais lado a lado. Encaramo-nos demoradamente. Proferiu a mesma questão da primeira vez. Diferentemente àquele fatídico encontro, teve por resposta o que gostaria de ter escutado cinco meses antes.

— Que tipo de relacionamento é o nosso?
— Somos amigos íntimos… Não é? — Respondi, sem saber para onde desviar o olhar.
— Não! Não é! — Fitava-me, indignada.
— Não te arrependes?
— Não quero mentir. É difícil, mas eu consigo lidar. Acho mesmo que posso superar. Eu escolhi isso. Eu… Escolhi passar a eternidade contigo. — Soava firme e certa.
— Vamos dormir. — Beijei sua testa suavemente e cobri nossos corpos.