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segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Literatura como forma de conhecimento de pleno direito ou comentário à socialidade semiobrigatória após eventos universitários

Na casa

Após um seminário sobre poesia, alguém da organização do evento fixou meus olhos e decretou: “você não importa”, até mesmo “você não existe”: “apenas o texto importa” (nem mesmo importa se fiz “bem o texto”). Adjungiu imediatamente: “nós não somos sua comunidade, não vamos levar seu texto pra frente”. Exclusão disfarçada de conselho encharcado de condescendência. Tentou jogar toda a presença de um leitor arguto na lixeira: corpo, história, fadiga, vida, desejo despejados da morada intelectual. As afirmações não me doeram por vaidade; marcaram-me porque revelam uma doença do âmbito acadêmico: crítica e ensino literários reduziram-se a práticas de gabinete, deslocados da experiência de leitura e da própria prática de criação literária. A posição de acadêmico de estudos literários desvencilhou-se da vida em sua verdade encarnada, comentando a vida apenas à distância dos conceitos de grandes nomes teóricos europeus ou palavras de ordem sociológicas.

Isso se deve, em parte, à urgência de posicionamentos políticos e sociais explícitos no âmbito das artes, o que confunde posicionamento político e social com crítica de arte; um salto equivocado. Não é como se fosse por aí que a literatura estabelecesse sua importância. Como diz um grande amigo: vivemos na cultura do take, “tudo pelo caráter espetacular da enunciação”. Sim, é isso. Há que se falar certo e impactante, pois as atenções fragmentadas já não fluem mais entre sentenças subordinadas, ideias prolongadas, desenvolvimentos em três, quatro, cinco partes argumentativas. Pancada, pancada, pancada. Frases de efeito e pouco mais que isso. Como esse mesmo amigo descreveu: “convergência do coach com o pesquisador acadêmico: dependência do efeito”. Esse clamor urgente a se posicionar em meio à crítica literária emburreceu tudo e impede (ativamente) de contemplarmos a politicidade própria às artes.

A insistência na dimensão social da obra de arte criou uma indisposição com qualquer uma que não tenha algo a dizer sobre “o mundo” de imediato. Sabemos que a literatura sempre diz algo sobre o mundo, porque só fala a partir desse, ainda que o negue. Mas os textos canônicos, digamos, do Candido e dos críticos que ele formou, sempre vão nessa direção de discorrer de algum modo sobre “o que realmente importa”: contradições sociais, desigualdade, violência, etc. Claro, eles sempre tentam mostrar que há uma relação indissociável entre o que e o como do texto, que toda forma é forma de algum conteúdo, que a eficácia do conteúdo depende da eficácia da forma. Isso está correto. O problema surge quando muita gente joga o bebê fora com a água do banho, especialmente hoje em que há necessidade de sempre (de)marcar posições nos meios intelectuais: já se passa da literatura para o que não é literatura como se a primeira fosse apenas um pretexto para a segunda, em vez de o que está sendo estudado.

Os textos críticos que mais me agradam se aprofundam num texto, desfiam suas relações textuais, fazendo todo um trabalho de citações e remissões, aproximando e afastando de outros, complicando a coisa toda para fazer da literatura uma experiência em muitas frentes: na língua, no pensamento, na sensibilidade. Coisa rara hoje. A literatura amplia, não reduz, nossa experiência. Ler um livro é ler gente, com tudo que isso implica de social, de individual, de racional, de delirante, de esquisito, de patológico, de normalizado, de enfeitado, de ressequido… Se a literatura não puder ser a transcendência da sociedade na sociedade, se tiver de ser só a reprodução do mundo, melhor desistir; se for só tilelê, nenhum motivo para ler, melhor ficar sentindo a vida passar. Literatura não é só forma, nem só conteúdo, tampouco só afeto, nem mesmo só ideia, não é puro conceito, mas também não é inapreensível de todo: literatura é o que se tece entre tudo isso. Supera a sociedade nascendo no seio da própria sociedade.

Recordo o que expus na introdução de minha dissertação: a literatura constitui um discurso próprio no sentido técnico: utiliza a linguagem de um modo singular, gera conhecimentos que não se reduzem aos modos explicativos da historiografia, da filosofia, da psicologia, do jornalismo, etc. Pode produzir verdades (não empíricas, dessas que se apresentam em planilhas e tabelas), um saber existencial, ético e formal, que transforma o leitor (e o autor porventura).

Há, para mim, duas tradições que me fazem pensar isso. Uma é a da crítica erudita e apaixonada (penso em Harold Bloom), cuja virtude, ainda que contestável em muitos sentidos, consistia sobretudo num ímpeto de amor à leitura: selecionar, opinar, arriscar rejeições e elogios fundamentados na leitura. A outra, da leitura atenta ligada à melhor desconstrução (Blanchot, Derrida, Paul de Man), que mostrou como o próprio tecido da linguagem recusa se fechar em sistemas e amplia o que podemos dizer sobre um texto. Gosto de ambas: Bloom pelo entusiasmo com a literatura e aquelas transformações que a leitura nos provoca nessas dimensões quase indescritíveis de tão íntimas, a desconstrução pela atenção rigorosa ao mistério da linguagem e ao problema do que significa entender um texto.

Harold Bloom poucas vezes foi convidado a ser lido sem ironia, mas nele não me interessa a defesa de um cânone conservador nem uma retórica de exclusão: interessa-me o que chamo impulso leitor: insistir que a leitura é uma paixão cognitiva que altera quem lê, não um expediente neutro. Bloom falava da “angústia da influência” porque reconhecia que ler é, antes de tudo, uma experiência de transformação: o texto instala imagens, hábitos de pensamento, sensibilidades que reconfiguram a memória e a imaginação leitora. Essa transformação não cabe facilmente nas categorias disciplinares da filosofia ou da sociologia: trata-se de uma modificação do repertório interno do leitor (uma reordenação de imagens, ritmos, possibilidades narrativas). Defendo esse impulso porque acredito que a crítica precisa começar por esse encontro vivo com o texto, não por sua instrumentalização para provar teses pré-moldadas e dadas de antemão.

Esse ato de entender, para Bloom, constituía-se numa operação cognitiva em sentido amplo, uma transformação quase fisiológica da sensibilidade. Ao lermos profundamente (expressão dele: deep reading), além de acumularmos informações sobre um soneto de Shakespeare, tornamo-nos um pouco mais shakespearianos. Nossa arquitetura mental internaliza novas cadências, nossa gramática interior assimila novas possibilidades de sentir e avaliar. É um conhecimento que nos possui, um rearranjo da nossa subjetividade que é, ao mesmo tempo, ético (pois altera nossa relação com o outro), existencial (pois altera nosso estar no mundo) e cognitivo (no sentido amplíssimo de reorganizar nossa percepção). A literatura alarga e aprofunda drasticamente o repertório e a complexidade das perguntas que somos capazes de formular, mesmo que não nos dê respostas.

A leitura rente [close reading] não é um jogo de erudição; é um método de evidência. Ler verso a verso ou frase a frase estabelece um conjunto de dados interpretativos: repetições, elipses, alternâncias de ritmo, anáforas, deslocamentos semânticos, etc. Esses elementos constituem provas textuais que permitem construir e testar hipóteses sobre o sentido (a interpretação) do texto. Sem isso, estaríamos falando sobre nada. A partir daí desdobram-se interpretações plausíveis e mutuamente justificáveis, todas ancoradas no próprio texto. Leitura cerrada, rente, com o nariz tocando o papel impresso, ancora e favorece a pluralidade interpretativa.

Vi nas mesas uma maldição pelos seguintes extremos: abundância de jargão sem domínio real do objeto estudado (citações desnecessárias de Deleuze, Agamben, Didi-Huberman, puro ornamento) e a tendência a transformar escolhas críticas em autoproteção política (ex.: confundir seleção com segregação). Não há problema em se aproximar pelo viés teórico; o problema é quando a teoria substitui a leitura: quando o poema é apenas pretexto para uma colagem de citações que não consegue dizer o que o próprio poema faz (na língua, com o mundo, etc.).

Apresentei uma leitura rente, verso a verso, sem nostalgia metodológica, senão pura convicção: há uma ordem na leitura, há uma maneira de pegar na mão do poema e caminhar ao seu lado. Isso não exclui teorias, contextos, política. Exclui, porém, reduzir o poema a índice de categorias prontas. A crítica (que merece esse nome) amplia a obra, continua a potência criativa do texto: escreve-se com a obra, em torno da obra, como prolongamento de suas energias.

Dois vícios, em especial, definem aquela recusa em encontrar a chave do texto. Primeiro: redução sociologizante: o poema deixa de ser um universo verbal autônomo para se tornar mero sintoma (termo repetido à exaustão durante as apresentações) de uma identidade (de gênero, de raça, de classe) ou de um contexto histórico. Ignora-se sua qualidade estética; importa apenas sua utilidade como ilustração de uma categoria pré-existente. Segundo (talvez mais perverso): redução filosofante: esvazia-se o poema de sua potência para convertê-lo em exemplo de um conceito de Agamben, Deleuze ou Didi-Huberman (os mais citados durante o evento). Rebaixa-se o poema, que poderia desafiar e complexificar o conceito, à condição de servo ilustrativo. Em ambos os casos, opera-se uma violência: nega-se à literatura sua condição de discurso próprio, de forma de conhecimento de pleno direito, plenamente capaz de dialogar de igual para igual com a filosofia e a sociologia, e não de lhes servir de escrava.

Não nego a legitimidade dos comentários à literatura que mobilizam gênero, raça, ou questões de filosofia; nego, antes, a substituição da obra por categorias exógenas sem demonstração textual. Tratar um poema apenas como prova de uma tese social ou filosófica — como se servisse para confirmar um quadro teórico — esvazia-o de sua natureza propriamente literária. Poema não é mero testemunho. Dizer que um poema pode ser interpretado sob a óptica do identitarismo exige demonstrar por que isso enriquece a leitura. O caminho mais sério sempre consiste em: mostrar o que o texto diz e como o diz, mostrar como uma matriz teórica esclarece aspectos relevantes, argumentar por que essa interpretação amplia o entendimento, sem reduzir o texto a um índice sociológico.

Aquela prática da leitura rente, verso a verso, faz justiça ao caráter irredutível do literário. Não é um fetiche pelos detalhes, senão o reconhecimento humilde de que o conhecimento próprio da literatura está ligado inextricavelmente à sua materialidade linguística. A “abertura” da interpretação não é uma licença para o proselitismo teórico; pelo contrário, consiste num processo rigoroso de descoberta que ocorre dentro das pistas e dos limites estabelecidos pelo próprio texto. Cada ambiguidade sintática, cada imagem, cada escolha lexical oferece-se como porta pelo texto. A leitura cerrada constitui o método que se recusa a arrombar a porta com um pé-de-cabra teórico, preferindo, em vez disso, encontrar a chave que o próprio texto fornece através de sua generosidade, abundância e complexidade. É assim que se concretiza o ditado de que a literatura comporta infinitas interpretações: não através de uma pluralidade vaga de opiniões, mas através da exposição rigorosa e argumentada das potencialidades que coexistem na urdidura mesma da obra estudada.

Repito: a literatura constitui-se numa forma de conhecimento de pleno direito. Transforma modos de sentir e de (se) relacionar. A técnica linguística faz modulação ética e existencial. O leitor muda: aprende a ouvir e viver de outra maneira. Por isso me irrita quando a academia contenta-se com operações que soam como exercícios internos de legitimidade: simpósios em que a prioridade é demonstrar a adesão a uma escola crítica, sem atenção detida, focada, profunda nos textos e para os textos.

Não tenho uma solução para a situação. Tenho, isso sim, práticas e urgências: ler mais (de novo), ensinar a leitura atenta, praticar a crítica que se faz também em oficinas e zines, voltar à escrita pessoal, restabelecer a vida com música e corpo. Estou em transição: quero menos performatividade teórica e mais criatividade estruturada; menos reafirmação de redes de prestígio e mais trabalho que se possa levar à sala de aula, à oficina de escrita, à cidade que circunda a universidade.

O futuro da poesia existe porque há quem continue lendo vorazmente, com fome de verbos. Me preocupa não tanto a sobrevivência do verso, mas a sobrevivência de uma crítica capaz de dizer sim e não com argumentos, de formar gosto e de justificar, numa linguagem pública, o apoio social às instituições culturais. Se a crítica recebe dinheiro público, é justo perguntar: em que medida esse recurso favorece a circulação da sensibilidade, do rigor e da experiência estética além das paredes da universidade?

Saio desse ciclo em luto parcial; jamais derrotado. O luto não impede que eu volte aos cadernos, à composição, ao exercício, ao sol e aos amigos. Pelo contrário: sustenta um movimento prático: ler, escrever, ensinar, compor: coisas que não substituem umas às outras, sustentam-se. A literatura, enquanto discurso próprio, merece leitores que a respeitem pelo que é, com entusiasmo e dedicação, com dignidade e à sua altura. Quero investir meu tempo e minha voz nisso, sem mais.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Anotações esparsas de um projeto de história da arte moderna tomando-se o cinema como eixo organizador

Tenho pensado que talvez o cinema seja o grande eixo a partir do qual contar a história da arte moderna e contemporânea. Claro, considerando-se como arte moderna a arte que se inicia próximo ao modernismo, quiçá com o realismo, com os usos da fotografia e as primeiras gravações sonoras em diante.

Coincidentemente, a máquina de escrever também surge nesse período, facilitando a produção de roteiros e de literatura, libertando a mão do escritor em relação ao texto, quer dizer, autonomizando o texto, tornando-o impessoal, passível, finalmente, de crítica objetiva.

A crítica objetiva faz parte da arte cinematográfica tanto quanto da arte literária, é dizer, o cinema pode ser bem feito ou mal feito, mas não pode deixar sem reação, sem resposta, sem comentário. O cinema, afinal, também já incorporou a crítica ao seu circuito de funcionamento.

Mas por que o cinema como eixo da modernidade artística?

Bem, porque o cinema teve sua infância, sua adolescência e sua maturidade, viveu todas as eras, as fases, as épocas da criação artística.

Sei que o modelo padrão da história da arte centra essa história na evolução das artes plásticas, desde o perfeccionismo do século XIX até o conceitualismo dos anos 1970, com uma teleologia da progressão sistemática da pintura figurativa à pintura abstrata, passando dos impressionistas aos cubistas à abstração completa.

Não quero contar essa história, uma história datada, fajuta, teleológica.

O cinema como eixo organizador da história da arte moderna envolve se engajar com a criação de arte como um processo modernizador. O próprio ato de fazer filmes como um ato moderno. Pois o filme compartilha com a poesia o poder do corte, com o teatro a atuação, com aquele e a literatura a narrativa, com a música o tempo, com a fotografia e as artes plásticas a visibilidade e até o uso da arquitetura. E é uma arte da presentificação dos ausentes: vemos atores mortos nas telas, mas eles estão vivos nos filmes, há uma dobradura do tempo muito peculiar, raramente encontrada, pois não se trata de personagens ficcionais ou das palavras de alguém em uma carta, mas da própria imagem corporal desse ser, sua colocação em cena, mas essa colocação só pode ocorrer através da atuação, do ceder sua existência ao personagem, é dizer, ao não ser a si mesmo.

Não ser a si mesmo é talvez o único jeito de se tornar imortal.

sábado, 31 de dezembro de 2022

Última entrada deste ano

Disseram-me hoje ser possível manter um diário sem escrever diariamente. Foi como dizerem que me amam. Palavras suaves e doces — alívio. O que livra do peso, liberta da obrigação respeitando a vontade, banha feito bálsamo.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Quando o céu é mais azul


O céu não é mais azul quando o sol despe-se de nuvens. Esse céu é apenas quente e amplo. O céu deixa-se azular quando sorris após o tapa tão leve, simbólico, sucedâneo do adjetivo (idiota), prenúncio do esplendor em teu rosto. Ali, naquele instante. O céu mais azul. Da cor da esperança e da melancolia. Dos sentimentos gêmeos: sol e lua de mãos dadas no amanhecer. O céu queima sob o astro nu; teu rosto queima o coração. Cerúleo (adjetivo): quando miro ao lado e o vento denuncia que teu perfume impregnou o ombro esquerdo da camiseta: jamais posso lavá-la novamente, só a memória já não basta. Tudo isso ainda não é dizer nada e tu o confirmas sem dizer palavra. Chegará algum dia o fatídico episódio quadragésimo nono da série (para a alegria dos que assim nomearam a situação, é claro)? Tu bem sabes; também sei. Não bastou. Nem basta. Bastará? As mordidas dos mosquitos já não coçam quando essa hora alcança o íntimo. Se ao menos teus olhos

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Cachorro uivando pra Lua

A esperança é um dom
Que eu tenho em mim, eu tenho sim

Letra de Sonhos, de Peninha, na voz de Caetano Veloso.

Cachorro todo negro uivando pra Lua, só lábios e dentes, unhas e patas. É preciso ter orelha de casaco, aquecer palavras em forno de macarrão. Parede de caramujo por dentro: estrada para oito foras em caminho de gosma branda. Insetos de três metros feitos de órgãos e um quarto servem jantar na superfície do planeta escuro. Vermelho tem gosto de colcha de cama em dia de domingo. Como se confessam as borboletas com pontas de asas verdes? Deus escuta os clamores das réguas de bilhar. Dois reais e quarenta e sêmola. Cinco janelas de cactos: carro afundado em lago congelando. Um grampo de roupas preso no varal sem língua, chinela velha de iogurte, nem bem colher de lavagem a seco, paletó e gravata, tampa semiaberta pro carrossel. Tuba no circuito dos soldados. Por que as ilhas escondem os anjos canibais? Carne de pombo amarelo, pescoço de colchão, chapéu de bebê lagartixa. Há trinta e sete ventos no subsolo do ventre do urubu. Quem lamberá o painel de verdades futuras? Choverá ontem. Nenhum clima político no barro do céu em fim de tarde. Até pegar grama na voz; passarinhar o galho das ideias. Encontrar-se, quem poderá? Neva-se no barbeiro da esquina. Como jogar joelho com futebois tortos? Desinfle a árvore do mundo. Mãe é nutrição. Nem montanha faz introdução. Fecha esse filme, não resta esperança para as cascas da imagem a contragosto. Que salgar tem a tarde quando se reflete nas asas da garça em pleno voo? O vidro do peixe escorregando pela fralda suja da mansão. Cole meleca debaixo da mesa do sublime. Onze é quatro, homem com hexágono braços e uma quantidade total de azul pernas. Barba de rezar terço; azulejo amarelo de experiência da lira; sofreguidão brilha em um frasco de xarope avesso ao alcance do toque.

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Sobre o sonho: crítica teórica à prática

É impossível compreender a lógica — alógica, ilógica — dos sonhos sem tomá-los por aquilo que realmente são: acontecimentos objetivos, isto é, impessoais e verdadeiros. Sonhos pertencem à mesma categoria de acontecimentos a que profecias pertencem, portanto, sonhos também pertencem à esfera da comunicação — mais, da linguagem.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Sobre o ciúme

Num vídeo de Christian Dunker sobre o ciúme, o psicanalista brasileiro insiste na estrutura projetiva do ciúme a partir de Freud. Para exemplificar, ele cita a peça Otelo, de William Shakespeare, como exemplo de um ciúme impensado por Freud, além de mencionar o romance Dom casmurro, de Machado de Assis, como um exemplo de "ciúme delirante".

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Sobre o vanguardismo em arte atualmente

Estou de volta no bonde Maiakovski, crendo que sem forma, etc. Quero dizer, nunca engoli esse papo do pessoal de ficção de gênero [genre fiction] de que inovar o conteúdo, o assunto, é um vanguardismo. Primeiramente porque os vanguardistas não fizeram isso, senão estipularam procedimentos artísticos, métodos, maneiras, modos de fazer, fosse essa arte efetivamente feita ou não. Quero dizer, é preciso tratar o tema com uma apresentação à altura de sua ousadia – sem isso fica impossível respeitar qualquer esforço (os fatos me corroboram). Segundamente porque os vanguardistas estavam certos, é no procedimento – primo próximo da forma – que se encontra seguramente o novo (por vezes tomado do velho, mas sempre diferente deste de alguma maneira). Se inovando na forma rapidamente esbarramos nos limites das artes, ainda persistimos buscando os horizontes da Arte. Sem a tradução (transcriação?) da inovação procedimental em inovação formal conforme operada pelas vanguardas (n.b. pré- e pós-guerra) não teríamos o sentimento (e o sentido) do novo em arte. Não inventaríamos. Contudo, inventar é o mote (e a glosa).

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Diário - 2018/06/01

200. Se eu tivesse de responder agora o que é poesia para mim, diria que é uma força absolutamente impessoal capaz de mobilizar todas as quatro (3+1) pessoas envolvidas na criação do universo. Para me justificar, deixo um poema lido numa entrevista, por absoluto acaso:

Colagem
Carlos de Oliveira
(com versos de Desnos, Maiakovski e Rilke)

Palavras,
sereis apenas mitos
semelhantes ao mirto
dos mortos?

Sim,
conheço
a força das palavras,
menos que nada,
menos que pétalas pisadas
num salão de baile,
e no entanto
se eu chamasse
quem dentre os homens me ouviria
sem palavras?

Cadeira de rodas

Próximo ao Terminal Integrado jaz um homem sobre sua cadeira de rodas vendendo alho em pequenos sacos. Ele claramente tem dificuldades – sequer pode coçar sua cabeça com os dedos estendidos como nós. O que desejo compreender é como isso é possível. Pessoas vêm e vão, passam, mas não o enxergam. Olham e nada. Isso é feio, ele é feio, posto não está ali onde deveria estar. Quem é? O que será? Ninguém sabe, jamais saberá – não há como saber. Isso tudo me perturba. Tenho vontade de chorar. Não é pelo dinheiro, é pela cegueira, pela destituição. Como pode Deus ser Sumo Bem se viver é pior que o inferno!? E ainda assim Ele permanece Lá. Permanecerá. Viver é o maior Mal inventado. É pior: é criado. Creado, dicen nuestros hermanos. Não importa o nome. Tenho vontade de matar a todos e não suporto uma gota de sangue desnecessária. Talvez não seja, então, suas mortes que eu deseje, mas a morte de seus velhos, a morte do ser, de seus seres. Rasgar o que é, o que há, para a abertura do que pode ser, do que virá. Sempre foi isso que me destruiu: ninguém nunca é o que pode ser – é isso que me aniquila de mim. E é impossível suportar a dor. Por isso se chama dor, porque é insuportável. Mas alguns dizem que isso é maturidade, saber resistir – viver. Eu não quero esse horror, estou apavorado e temeroso de enfrentar tamanha tortura monstruosa. Eu odeio a vida. Odeio viver. É uma dificuldade intransponível na qual nos colocam feito espetáculo para se rirem, diversão penosa. O que é um furor heroico, Bruno? Diga-me! O que é!? Merda nenhuma, tô sabendo, ninguém aguenta essa violência infinita de nascer. Como se lida com isso? Essa aberração incondicional, imperdoável, maligna até os sub-átomos, até as entranhas, até às condições. Ser é morrer. Isso é impossível! E isso não é nem de perto se livrar de viver. Pelo contrário, é viver em plenitude, viver completamente insensível, cego e perdido. Eu só quero poder. Poder sem mais. Poder sem mais nada. Eu só quero poder. Como se faz para poder? Como é que se pode? Eu só quero. E querer é insuficiente para o que seja. Querer é insuficiente sempre. É o que resta, sim, mas é insuficiente. A insuficiência resta e, condensada no fundo do frasco, compõe-se em querer. Ninguém quer só o resto, nem mesmo eu. Eu quero desviver em cheio. Antiviver. Não-viver. Isso parece além do impossível. É impensável, inconcebível. Verdadeira heresia. O inferno parece uma opção mais leve, afinal, outrora os demônios foram anjos. E nós? Para sempre barro, para sempre criminosos no jardim, usurpando frutos, criminosos do jardim, abusando das delícias e vivendo. Esse desgraçado sopro.

Eu quero ver Deus nesse homem.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Diário - 2018/02/23

197. Por muito tempo concordei com César Aira intuitivamente: não há literatura "abstrata" (no sentido que se usa para as artes visuais não-figurativas), porque a semântica é, em grande parte, referencial e não há modo simples de se desligar essa máquina. Creio, contudo, as Musas inquietantes alcançam o objetivo, satisfatoriamente ou não, não importa, por um excesso de referência, tecnicalidade extrema e "objetividade/neutralidade". (isso não quer dizer que só haja literatura realista, isso seria a morte da literatura e o fim do pensamento, ou vice-versa, quer dizer ainda outra coisa) 

198. O erro dos chamados pós-modernos foi crer que a máquina referencial (para não dizer máquina semântica) era um problema. Não é. Muito bem nos ensina Sellars, não há pré-conceito, só conceito-pré, quer dizer, não existe dimensão a-conceitual do pensamento, "puro dado" ou "puro fato" são em si mesmos abstrações, seriam inacessíveis mesmo. Não só já são interpretados pelo sistema senciente/sensível ao traduzir para internalizar/vivenciar/adicionar o matiz afetivo, como também nossa relação com esse sistema já é ela mesma conceitual e abstrata. Daí uma das utilidades da existência dessas máquinas, como a semântica, ou a referencial.

199. Ao linguajar, i.e., usar linguagem, o sujeito não transmite ideias, tampouco passa significados de lá para cá e de volta para lá, ao contrário, sentidos (tres)passam(-no) e é isso que nos ensina a semântica.

Diário - 2018/03/17

196. Quero discutir a "virada mística" de um amigo. Poderia dizer "virada espiritual". Tanto faz, até "religiosa", se quiser. O problema é que ele acha que descobriu a roda ou a pólvora, mas só chegou na base de qualquer espiritualidade. As vezes nem na base, só em concepções muito bizarras, muito erradas. Conhecer religiões tradicionais, antigas, dá muita luz nessas horas: você não pensa nem fala idiotices. Basicamente virou "espiritualidade Deepak Chopra", "new age", neomisticismo, numa palavra: burrice. As vezes eu acho que é falta de estudo, falta de leitura e foco, deficiência de vitamina P(ensamento). "Ah, porque eu tive uma experiência..!", eu tive várias e não fico propagando besteira por aí. Também há conhecimento, aprendizado e sabedoria na mística, na espiritualidade. Sujeito chegou agora na brincadeira e acha que sabe! Só pra rir, mesmo. Esse é um dos momentos onde tradição faz falta.

Diário - 2018/03/08

194. No canto da visão estava um homem sentado, curvado, cabeça quase nos joelhos. Virei-me e vi cadeiras empilhadas.

195. Disseram numa banca de mestrado que buscar fama/reconhecimento é ser o mais tradicional possível (conservador no sentido dos esquerdistas?). Mas será isso mesmo? A fama é um fenômeno contemporâneo, como pensar essa vinculação bizarra?

Diário - 2018/03/07

191. Ainda não se tem muita clareza, mas é preciso separar o dogma do axioma, pois não são sequer parecidos. Algo que vira e mexe emerge no pensamento contemporâneo é levar em conta as consequências como porção definidora junto dos outros fatores, das outras porções. Talvez por axiomas gerarem ciência e dogmas gerarem falência haja uma separação, ou pelo menos seu embrião.

192. Falta-nos, enquanto instituição, rigor alemão. Não é para eliminar o pensamento molenga dos franceses, muito útil, eu adoro, mas é para nos protegermos, nos blindarmos de acusações contemporâneas.

193. Durante a aula, convidados a falarmos de nós mesmos, de alguma peculiaridade nossa, a primeira garota a abrir a boca só emitiu pontos externos, de validação social: "ai, sei lá, eu sou esquerdista, feminista, sei lá". O que houve para a extinção da experiência interior? Talvez daí, em parte, a famosa profetização da decadência e fim da literatura. Pois há o fim da vida íntima. Empty shells. São carcaças vazias para essas bandeiras.

Diário - 2018/03/06

186. O livre-arbítrio causa muita dor de cabeça. Há quem diga que não existe. Tudo bem, pode não existir. Mas aí restam duas questões: a) por que se faz/tem experiência dele? b) qual pergunta colocar no lugar de "o que fazer?"?

187. A estrutura da teodiceia, o famoso "porque Deus quis", se repete em diversos níveis no pensamento pós-moderno. Talvez porque o pós-moderno repita a estrutura geopolítica do império bizantino, por exemplo, onde e quando ocorria o abandono da teologia e a fundação da teodiceia, quer dizer, o abandono de uma reflexão (e) de (uma) sabedoria (de viver) traduzida em atitude e a fundação de uma narrativa jurídico-política totalizante justificando o império, as hierarquias, e o estado atual de coisas. Veja-se bem: a experiência mística (sabedoria reflexiva tornada atitude) proposta, por exemplo, por Cristo, desestruturava as hierarquias romanas e judaicas, tomando a proposição da igualdade radical. Sucede-se uma mistagogia, um esforço de sistematizar essa revolução do viver para torná-la experiência de todos, assim o iniciado faz parte e o não-iniciado não faz parte da religião, ou seja, da experiência mística, porque vivem de modos diferentes. Com a oficialização da religião, surge uma quebra: quem nasceu no território é daquela religião, portanto dispensa-se a experiência mística, anteriormente definidora da identidade e do pertencimento religiosos. Então as práticas linguísticas sob o nome 'teologia' abandonam a reflexão crítica e vão apenas tentar justificar aquela religião como correta, enquanto também tentam dogmatizá-la, i.e., produzir axiomas jurídico-políticos para reger moralmente a vida naquele ambiente geopolítico. Por isso a religião (oficial) é dogmática e o dogma é individual: é a polícia da vida. Já não é mais a experiência mística – abertura para outra forma de vida através da revelação –, mas apenas jurisdição e moralismo, imperialismo sobre a vida. O que se deve recuperar, portanto, é a mistagogia, a sabedoria de viver iniciada pelo místico fundante e sistematizada por seus discípulos também sábios (não obrigatoriamente os mais próximos no espaço-tempo, senão aqueles mais próximos na sabedoria, na experiência mística mesmo, fato muito turvado por narrativas oficializantes, daí um dos problemas da canonicidade). Resta notar a importância do artista nessa questão toda. O artista revela(-se) o mundo. Quer dizer, tem uma percepção do mundo revelada a si, produzindo percepções reveladoras do mundo. Aqui o vínculo entre mistério e místico deve estar óbvio. Por essa e outras questões, o artista explicitamente engajado em temáticas políticas dificilmente dirá algo revelador, exatamente porque está preso ao já-exposto, só pode reafirmar o óbvio, o que já se sabe, só pode "tomar posição", mas não consegue instaurar uma posição através da produção duma sensibilidade ou outro processo qualquer.

188. Creio ter desejado experimentar quando criei S&D. Eu estava testando uma tentativa nova, parece-me hoje (dez anos depois). Algo angustiante sem cair no absurdo, aterrador sem falir em terror. Algo único.

189. Vivemos uma era sensível, estética (se o termo não for idiotamente tomado como caliologia, mas como estésica) mesmo: o que importa é sentir e fazer sentir, comoção. A moção propriamente dita, o movimento, desapareceram, em nome da "sensibilização", termo tão em voga na minha formação escolar primária. Não, não essa sensibilização, essa é desnecessária. Só há duas saídas (sim, uma disjuntiva terrível, necessária igualmente): o pé no chão estóico reavivado; a loucura do furor heroico, sua imersão inevitável, inelutável, até à extinção (de si).

190.  Por que as pessoas querem ser bonitas? Por que batem fotos com ângulos assim, olhares assados, sem bocas, narizes distorcidos? Minha sensibilidade é profundamente cagada, toda errada, mas eu só conheci duas belezas até hoje: músicas, só algumas; atos de sacrifício de si pelo bem alheio. Somente. Não vejo beleza em romances. Nem em pinturas ou desenhos. Nem em esculturas. Nem em superfícies que toquei. Nunca cheirei odores belos ou bonitos.

Diário - 2018/03/05

183. Ainda lembro quando vi o padre chorando. Dirigiu a divina liturgia muito rapidamente. Chorou ao final. Não se pronunciou. Nossa amiga notou e eu fui verificar, mesmo sendo recém-chegado, era o mais íntimo. Rituais, rituais, enfim conversamos. Sentia-se sozinho, saudades de casa, poucos amigos. Sempre achei que os padres tinham a Deus. Não poderiam sentir solidão. Ledo engano. Somos todos os mesmos. (Ele está muito alto)

184. Uma teoria da leitura, da literatura, envolve inevitavelmente uma teoria do autor, do leitor, da compreensão, da subjetividade, do significado, em suma, é impossível passar pela linguagem. Tudo isso quer dizer que há muito mais onde se pensa que não há quase nada.

185. É preciso fazer (novas, isso pode significar as mesmas) grandes irregularidades linguísticas.

Diário - 2018/03/04

180. Durante anos pensei que a música não fosse uma linguagem universal, tomava então as diferenças entre os gêneros, as tradições, as afinações/temperamentos, os estilos dos artistas e, na origem disso tudo, os gostos e preferências dos ouvintes. Tolice minha! A igualdade (universalidade) está em que todos têm preferências, todos podem se emocionar com tal ou qual composição. E é uma igualdade nuançada, um universal particular, um singular plural. É uma sagacidade, uma perspicácia, talvez até uma audácia. Uma igualdade mínima, alguém dirá, sem dúvida, concordarei, mas ninguém disse que se deveria começar ou encontrar igualdades extremas ou máximas. Talvez possamos chegar nelas.

181. As postulações crísticas afirmativas (suplantando a negatividade dos mandamentos precedentes) demonstra como a separação bem x mal já configura o fracasso da (verdadeira) bondade: se há "nós versus eles", acabou a humildade, o perdão, a benignidade, etc., todas as virtudes. Inexiste caridade com inimizade ("perdoa teu irmão antes de prestar tua oferta ao Pai" e tudo o mais). Cristo vem relegar toda "história de heróis" – assim denominemos o vício nas divisões (falsamente bem delimitadas) "bem versus mal" – ao passado arcaico e suprimido, realmente superado, estabelecendo o reino vindouro, o "reino doutro mundo", reino dos iguais.

182. A postulação de Leopardi nas páginas quatro mil cento e qualquer coisa do Zibaldone sobre o Mal me remete à pergunta do "por que há algo (vida, mundo, língua) em vez de nada?" como aplicada exatamente ao terceiro termo dos parêntesis dada a conjuntura atual: por que ainda há poesia em vez de silêncio?

Diário - 2018/03/03

179. Escreve-se no início do texto de hoje da Fausto mag: "Em 2018, comemoramos 190 anos do nascimento de Liev Tolstói.

Os grandes romances que escreveu – Guerra e Paz, Anna Kariênina e Ressurreição – não figuram entre as obras-primas da Literatura Universal apenas porque são histórias interessantíssimas, mas, principalmente, porque dizem sobre a natureza humana. Não a natureza do outro – ainda que possa vir a ser a natureza do outro –, mas a nossa.

Obras-primas da Literatura são então como espelhos. Ou melhor! Obras-primas da Literatura formam parte de nossa consciência."

Logo se vê que é uma escrita bem bosta, bem medíocre. Já começa numa confusão com hipocrisias como "natureza humana" (nossa? do outro!? delirantes!) e segue piorando pela incapacidade de ver a repetição feita em "espelho" e "consciência" – dá na mesma! O homo sapiens é tão mídia quanto qualquer outro vivente. É mesmo um dos maiores responsáveis pela proliferação das imagens! Quanta bobagem só para defender e congratular um morto. De outras terras!

P.S. eu poderia, talvez devesse mesmo, analisar o resto do texto, mas é intragável. Insuportável. Sem exagero. Não consegui ler até o fim. É horrendo, para dizer o mínimo. Abunda lugares-comuns. And it lacks brains.

Diário - 2018/03/02

171. Em tom de César Aira: Quem escreve tem uma sensibilidade mais filosófica, mais racional, mais consciente (digo assim por falta de termos melhores nesta manhã) comparado a quem desenha, por exemplo. Não digo consciente da ou na pieguice esquerdista, senão simplesmente esse pensamento capaz de se pensar. A imaginação visual pode ser abstrata ("não-figurativa", dizem os especialistas), a linguística jamais. Isso não é defeito ou motivo de choro, é só como as coisas são. Como as coisas se dão. A escrita moderna – chama(va)m escritura, poesia – tem disso de (se [meter a]) pensar. Oponhamos, pois oposições são muito modernas, a escrita a o escrito. É uma ideia interessante, só para evitarmos os termos de sempre – renovar as palavras é impedir à força a necrose (impedir a necrose à força?). A escrita é maleável, já apareceu em verso e prosa.
P.S. não é a alusão, nem a referência, tampouco a dificuldade, nem mesmo a forma(ta)ção, também não a invenção, ou a falta de sentido (ou seu excesso). É ainda outra coisa e claramente não a sei delinear, menos ainda definir.
P.P.S. talvez seja "encontrar uma língua"; mesmo isso parece insatisfatório, mas é preciso começar de algum lugar.
P.P.P.S. tem mais a ver com alquimia e ocultismo, hermetismo e esoterismo. Não é magia, estejamos atentos.

172. Odeio burocracia. Sinto-me nu (à força).

173. Um amigo começou a se perder como eu para os encantos da filosofia, está deixando sua poesia de lado (ele não era muito da prosa). Tenho medo disso. Quero dizer, parece-me um problema sério, um espírito do tempo, uma moda de época: "filosofia é legal porque o trabalho da ficção surge na criação de conceitos", tudo bem, mas ninguém está tão livre quanto estava na ficção, estão (estamos?) todos preocupados com (um)a realidade, com (um)a sociedade, etc., esse tipo de baboseira. Perdemos a última liberdade. Estamos nos alienando de nós mesmos. O que restará?

174. "À força" apareceu duas vezes, nas duas primeiras entradas de hoje, e agora é só oito da manhã. Não sei o que nos permeia, mas é aterrador.

175. Escreve-se por amor à literatura. Nada mais (nem menos).

176. Se é preciso come to terms com a mímese, façamos esse terrível trabalho: a arte não representa belamente, não deve criar imagens belas. (Quase) Ao contrário, deve imaginar justamente.

177. Literatura é devoção (total) à língua. "Qual língua?", perguntará o incrédulo. Não sabemos (ainda).

178. "Perto é outra coisa. Tuas fotos não te desenham nem um pouco.", disseram a ela.

Diário - 2018/03/01

164. Essa retomada do corpo, da performance, e afins, não passa de uma conjunção do desejo de um futuro que nos foi roubado pelo kapital e da saudade da presença, do evento, messianicamente definido e estimulado. Por um lado é falso, porque não teremos salvação se não a fizermos nós mesmos, não há "outro", magicamente diferente até os ossos, capaz de nos tirar da infinita devoração de Qi/Chi/Ki; por outro lado, é também falso, porque o projeto messiânico é o projeto de nossa devoração de Qi/Chi/Ki, de nossa subjugação e destruição, e isso é igual a humanismo, é igual a antropocentrismo, é igual a pós- e trans-humanismo.

165. Há coisas que sempre serão iguais. Simplesmente são assim, não mudar é sua mudança. Recusar-se. A terra, por exemplo. Outro exemplo? A poesia, essa sempre permanecerá a indefinição de si mesma. Verdadeiro não.

166. Como não existe "Eu absoluto", não existe "não-eu".

167. Outro mundo é sempre este mundo. Só muda como vivemos.

168. É preciso cortar. Não sei bem o que, mas é. Uma urgência de corte demanda um corte de urgência.

169. Encarei a tela branca desta entrada por quase dez minutos. Não sei o que escrever. Por que a escrita se nos esvai? O que há quando a musa se ausenta?

170. ∅