Sobre o confronto às margens do rio Knutster
I
Gramoz Hyseni aprendera a guerra na muralha de Pagnrith, aos onze anos, quando o pai apontou para o leste e anunciou: “eles vêm dali, virão de novo um dia”. Aprendera aos vinte e três, com uma lâmina helshamiana abrindo-lhe o maxilar num desfiladeiro sem nome, e aprendera a não confiar em coisa alguma que se movesse do outro lado da fronteira sem que ele mesmo fosse conferir de perto.
Os cortesãos de Adavem repetiam, ao adentrar alguma sala com cheiro de perfume, que não era homem da corte: trazia o cabelo cortado rente demais, a barba por aparar, as mãos grossas de quem ainda segurava a própria espada em vez de mandar outro oleá-la. Adavem cheirava a sal e a especiarias de Felveivia, a cidade portuária em que os duques discutiam tratados sobre vinho e joias. Pagnrith, a seu turno, cheirava a fumaça de forja e couro molhado de chuva de montanha, e dali — não do porto nem da capital — vinha o único exército de Adavem que já testemunhara sangue.
Trouxera oitocentos homens da cidade natal murada: ferreiros que largaram a bigorna, caçadores que trocaram a lança de javali pela de guerra, camponeses cujos avós já enterraram helshamianos na mesma porção de terra. Outros trezentos trouxera de Saldockley, a meia jornada dali, onde diziam (Gramoz jamais duvidara) que as mulheres atiravam com arco melhor que muitos soldados de linha.