sábado, 19 de setembro de 2026

Um capítulo da história recente de Autia

Um capítulo da história recente de Autia

Sobre o confronto às margens do rio Knutster

I

Gramoz Hyseni aprendera a guerra na muralha de Pagnrith, aos onze anos, quando o pai apontou para o leste e anunciou: “eles vêm dali, virão de novo um dia”. Aprendera aos vinte e três, com uma lâmina helshamiana abrindo-lhe o maxilar num desfiladeiro sem nome, e aprendera a não confiar em coisa alguma que se movesse do outro lado da fronteira sem que ele mesmo fosse conferir de perto.

Os cortesãos de Adavem repetiam, ao adentrar alguma sala com cheiro de perfume, que não era homem da corte: trazia o cabelo cortado rente demais, a barba por aparar, as mãos grossas de quem ainda segurava a própria espada em vez de mandar outro oleá-la. Adavem cheirava a sal e a especiarias de Felveivia, a cidade portuária em que os duques discutiam tratados sobre vinho e joias. Pagnrith, a seu turno, cheirava a fumaça de forja e couro molhado de chuva de montanha, e dali — não do porto nem da capital — vinha o único exército de Adavem que já testemunhara sangue.

Trouxera oitocentos homens da cidade natal murada: ferreiros que largaram a bigorna, caçadores que trocaram a lança de javali pela de guerra, camponeses cujos avós já enterraram helshamianos na mesma porção de terra. Outros trezentos trouxera de Saldockley, a meia jornada dali, onde diziam (Gramoz jamais duvidara) que as mulheres atiravam com arco melhor que muitos soldados de linha.

Os batedores traziam-lhe notícia da movimentação a leste havia meses. Colunas formando-se, carroças de artilharia desmontadas e testadas outra vez, um regimento inteiro reunindo-se para praticar outra vez o que os generais helshamianos, década após década, tentavam contra cada fronteira que encontravam: passar.

Gramoz sabia aonde tentariam passar. Só havia um lugar sensato subindo ao longo do Knutster: o vau onde a Rota da Tempestade cruzava o rio, dezenove quilômetros ao norte de onde a floresta começava a engolir a pradaria. Levou seus homens para lá dois dias antes de qualquer helshamiano pisar naquela terra.

II

O capim da cor do trigo maduro chegava à cintura e ondulava inteiro sob o vento seco do norte, o qual Gramoz reconhecia do inverno em Pagnrith mesmo sem neve à vista. Umas poucas dezenas de casas de barro espalhadas ao longo do Knutster esvaziaram-se aos primeiros boatos: portas abertas, cães uivando para ninguém, fogo apagado na lareira de alguma cozinha: os dois mil e seiscentos residentes desceram para o sul, para a floresta úmida onde o Knutster encontrava seu afluente. Ninguém os culpou.

Gramoz escolheu a elevação na margem sul do vau: cinco metros de terra que mal mereciam o nome de colina; bastavam. De lá se via a água larga e clara correndo sobre pedras, algumas soltas, e via-se, mais longe, a linha reta do horizonte em que a Rota da Tempestade desaparecia rumo ao leste.

Organizou os homens: no centro, três mil cento e setenta e um infantes fechados em falange, escudos sobrepostos, esperando a duzentos passos do rio. Nos flancos, quatro mil e tantos arqueiros deitados no capim alto, invisíveis para o olhar sem treinamento. Atrás da elevação, duzentos e dezesseis homens montados fora de vista, seus cavalos inquietos. Cravadas em plataformas de terra batida, balistas e catapultas leves que os artilheiros vinham ajustando desde que chegaram, o alcance marcado com estacas fincadas no chão.

— Estão a três quilômetros, senhor. — Disse um oficial, conforme subia até ele. — Pela estrada, margeando.

Gramoz permaneceu fitando o horizonte.

— Devemos ir ao encontro deles? Pegá-los ainda em coluna?

— Não.

— Senhor, se atacarmos agora, antes que formem linha…

— Deixe-os vir.

O oficial calou-se. Os helshamianos marchavam soltos, confiantes, sem formação de combate, porque jamais encontraram alguém disposto a esperá-los no lugar certo. Gramoz mudaria isso.

III

Cinquenta batedores cruzaram primeiro, ao raiar do dia: pôneis leves, arcos curtos, mandados adiante para testar o outro lado. Entraram na água até os estribos e atravessaram. Avançaram pelo capim olhando em volta, desconfiados do silêncio.

Gramoz deixou-os chegar a cento e cinquenta passos da elevação.

Ao seu lado, um rapaz de Saldockley chamado Luan já começava a tremer os braços com o esforço de segurar a corda até a orelha há um bom tempo. Gramoz mirou-o, então os cavaleiros abaixo e ergueu a mão.

A flecha de Luan cortou o ar; seguiram-se-lhe quatro mil e o capim que até então parecia vazio ergueu-se como se a terra cuspisse arqueiros. O primeiro batedor caiu do pônei antes mesmo de gritar. Os subsequentes tentaram virar, mas já não havia para onde virar: as flechas chegavam de todos os lados e o vau encheu-se de relinchos espantados e do baque de corpos na terra úmida e na água rasa.

Não sobrou muito daquele grupo. Alguns voltaram a galope, gritando sobre o que presenciaram; a maioria ficou boiando entre as pedras, tingindo a água de um marrom-avermelhado que a correnteza lavava devagar.

IV

Vieram arqueiros inimigos na sequência, pouco antes do meio-dia, quase toda a força de ataque à distância helshamiana de uma só vez, mais de dois mil homens entrando no rio até a cintura, arcos acima da cabeça para não molhar a corda. Vinham para limpar a margem, para calar aquele capim que se revelara traiçoeiro, antes que qualquer outra tropa ousasse atravessar.

Gramoz deixou-os sair da água, formar linha, ajustar os pés na terra firme. Ordenou quando os primeiros inimigos já erguiam suas armas, dessa vez a resposta não foi uma saraivada isolada, senão uma tempestade contínua de flecha sobre flecha, os adavemianos disparando e rearmando-se sem parar, escondidos detrás da leve inclinação de terra que os helshamianos, a céu aberto, não tinham como igualar.

O comandante do outro lado (um tal capitão Gul, conforme diriam os prisioneiros mais tarde) teve o suficiente em pouco tempo. Chamou a retirada com o próprio corpo, gritando por cima do tumulto e os que ainda podiam correr voltaram para a água, alguns largando o arco para nadar mais rápido, deixando atrás de si companheiros demais para contar de relance.

Gramoz, imóvel, observou tudo desde a elevação. Um oficial aproximou-se limpando o suor da própria testa com as costas da mão.

— Cessar! — Ordenou Gramoz.

O vento continuava a dobra o capim, harmonizado com os gemidos dos feridos na água.

— Senhor, eles voltarão, senhor.

— Sei disso.

V

A tarde passou devagar, pausa desconfortável: todos sabiam que se decidia alguma coisa do outro lado do rio. Gramoz mandou trocar os arqueiros dianteiros por reservas descansadas, checar as cordas dos arcos para umidade, distribuir água e pão duro entre os infantes, que comeram sem desviar o olhar da margem norte. Ele próprio não comeu; ficou de pé na elevação, mirando a fumaça distante de fogueiras que os helshamianos nem se davam ao trabalho de esconder e tentou adivinhar, pela disposição, o que restava de organização no acampamento inimigo. Após duas tentativas fracassadas a pé, alguém do outro lado quereria velocidade. Cavalaria, concluiu.

VI

Vieram ao anoitecer, quando o sol está baixo e vermelho, e o som chegou antes da visão: um trovão surdo e crescente, cascos sobre terra seca, seiscentos e noventa e cinco cavalos de guerra lançados ao mesmo tempo contra o vau. As lanças, longas e niveladas, brilhavam com a última luz. Os cavaleiros gritavam numa língua de consoantes duras e guturais que o vento espalhava e desfazia antes de chegar inteira à elevação.

Gramoz observou-os levantar cortinas de espuma na água, notou os primeiros animais escorregarem nas pedras do fundo e recomporem-se sem perder o ritmo, os cavaleiros na frente: em sua maioria jovens com aquela coragem que só existe em quem jamais testemunhou uma batalha de verdade.

Deixou-os chegar a cem passos. A cinquenta.

— Flanco esquerdo! Atirem!

Dois mil arcos dispararam em simultâneo, mirando os cavalos: aprendera havia muito que assim se derruba uma carga de cavalaria. Os animais atingidos tropeçaram, derrubando os que vinham atrás numa confusão de patas e corpos, mas boa parte da carga sobreviveu à surpresa e chegou à linha de infantaria.

— Firmes!

Gramoz sentiu o choque no peito antes de escutá-lo madeira rachando contra madeira, ferro contra ferro e, por baixo disso, o baque surdo e terrível de cavalo contra homem. A falange dobrou, cedeu meio passo, e não cedeu mais. Escudos partiram-se, trocaram-se às pressas lanças, usadas até o fim, por espada. Em algum lugar daquela massa confusa, um cavalo caído seguia chutando e um homem gritava sem que Gramoz distinguisse se de dor ou de fúria.

A linha suportou. Só então ele ergueu a mão para a cavalaria escondida detrás da elevação.

— Agora!

Duzentos e dezesseis cavaleiros adavemianos brotaram da colina como se a terra os tivesse gestado o dia inteiro para aquele momento. Caíram sobre o flanco da carga helshamiana já sem formação, já sem certeza de vitória. Não durou muito depois disso.

— Não deixem nenhum vivo. — Ordenou o conde rústico.

O oficial perguntou-se donde provinha aquele ódio. Aritmética: um morto não volta a atacar; um ferido, resgatado pelos próprios, tem amigos, orgulho e ódio.

VII

A infantaria helshamiana cruzou na madrugada, quando tudo estava sem cor: dois mil e tantos homens vadeando um rio já sujo do sangue de três tentativas fracassadas, tropeçando em pedras que, a essa altura, reconheceriam pelos corpos que as marcavam. Reconheceram os cavalos mortos amontoados na margem. Subiram a elevação mesmo assim.

Gramoz contemplou-os avançar e sentiu, por um instante, algo assemelhado a respeito.

— Loucos.

— Senhor?

— Disse nada. Preparem a linha.

A falange fechou-se outra vez, cansada, porém inteira. O choque durou dez horas, segundo contariam depois, embora ninguém no meio daquilo pudesse contar as horas. Gramoz manteve-se na elevação vendo a linha avançar meio passo, recuar meio passo, segurar. Viu escudos despedaçarem-se e serem substituídos pelos escudos dos mortos circundantes. O capim, outrora dourado, enlodara-se sob os pés de milhares de soldados que já não distinguiam se pisavam terra ou corpo.

O estratego não lutou, não era seu lugar, deveria apenas observar e decidir. Àquela altura, não restava o que decidir: deixou a linha resistir por si, confiou nos homens que treinara havia anos para exatamente esse tipo de situação.

VIII

Ao anoitecer, a linha helshamiana rachou pelas bordas: desmoronaram-se em retirada. Primeiro um largou o escudo para fugir depressa, então dez, cem, até que o restante do 2º Regimento Helshamiano tornou-se uma massa em fuga, atravessando o vau na direção contrária, escorregando nas mesmas pedras que lhes serviram de ponte durante o dia.

— Senhor, devemos persegui-los, senhor?

— Não.

— Mas, senhor…

— Um exército correndo com o próprio medo nas mãos já está derrotado. Descansemos; não precisamos confirmar o óbvio.

— Senhor, parece que vencemos, senhor. — O oficial trazia a voz mais cansada que orgulhosa.

— Quantos perdemos?

— Senhor, mil e oitocentos mortos, talvez mais. Dois mil feridos, senhor.

— E os renitentes do leste?

— Três mil e trinta e um mortos que conseguimos contar, senhor. Mais mil capturados. Quinhentos devem ter escapado de volta pela estrada.

Gramoz fitou o vale abaixo: o rio parecia um cemitério líquido com tantos corpos presos entre as pedras, o capim amassara-se numa área total que já se media em hectares, os primeiros corvos desceram tranquilos para aquele banquete de dias.

— Não foi vitória, oficial Ekrem. — Pousou a mão calejada sobre o ombro do jovem militar, mas não o encarou. — Foi um massacre.

Desceu sozinho até o campo. Passeou entre os mortos olhando rostos desconhecidos. Alguns traziam barba, outros pareciam ainda adolescentes, todos com a mesma expressão vazia. Parou junto a um soldado helshamiano jovem, dezesseis anos, talvez dezessete, corpo mole e de lado como quem dorme. Reconheceu um pedaço de couro dobrado no cinto do rapaz: uma carta selada com o brasão de Holcesham. Gramoz não lia as línguas do povo de Helsham. Guardou a carta mesmo assim.

— Oficial Ekrem, ordeno que enterrem os mortos como ensina nossa tradição.

— Os inimigos também, senhor!? Temos de dar aos corvos a parte que lhes cabe.

— Oficial Ekrem Maystorovich. — O jovem enrijeceu. — Eram homens. Enterrem.

O oficial assentiu. O peso de quase dois mil companheiros caídos já compunha fardo brutal o suficiente, somar três mil oponentes àquela contabilidade parecia um castigo adicional para os homens que mal conseguiam erguer os braços.

— Senhor, chamarei os capelães e os diáconos, senhor. Os padres do regimento podem conduzir a liturgia dos nossos antes que a noite feche. Mas os soldados… — Limpou o suor misturado à poeira da testa. — Mal têm forças para segurar as pás. Reclamarão se os fizermos cavar valas para os que tentaram degolá-los há poucas horas.

Gramoz desviou o olhar do jovem cadáver helshamiano para as fogueiras que começavam a pontilhar o topo da elevação, onde os sobreviventes arrastavam-se feito fantasmas.

— Não reclamarão se receberem o que lhes pertence por merecimento. — A voz firme, embora rouca de gritar ordens. — Diga aos intendentes para abrirem as carroças de reserva: cada homem que estiver de pé jantará porção dobrada de queijo e carne defumada. Também mande abrir os barris de hidromel. O frio desta altitude castigará os feridos e os vivos precisam de algo para limpar o gosto de sangue na boca.

Caminhou alguns passos de volta na direção da linha de artilharia, onde as balistas e catapultas descansavam qual feras de madeira adormecidas. Próximo, pesadas carroças de suprimentos de engenharia exibiam barris lacrados.

— Oficial Ekrem? — Gramoz apontou para o comboio. — Use a cal viva. Aquela que trouxemos para reforçar as paliçadas e os eixos das catapultas. Quando abrirem as valas comuns no sopé, deitem os helshamianos e cubram-nos com a cal antes de jogar a terra.

— Senhor, a cal do tesouro do Ducado, senhor? Para os inimigos!? — O oficial franziu o cenho.

— Para os vivos, oficial. Já vi a peste cobrar mais caro que o aço. — Irritava-se com a irreflexão do garoto em início de carreira. — Se a podridão de três mil mortos descer por este rio, não haverá ducado de Adavem nem de Gistiá para os quais voltar. A cal queimará a carne antes que as moscas tragam aquela febre maldita e interminável. Diga aos homens que é uma ordem de saúde e um sinal de honradez. Que comam a carne, bebam o álcool e cavem rápido. Amanhã o cheiro estará pior.

O oficial bateu o punho no peito em saudação e retirou-se, deixando o estratego sozinho na penumbra, com a carta analfabeta de um garoto morto apertada contra os dedos calejados.

IX

Gramoz voltou à Pagnrith natal cinco dias depois, e a cidade não organizou desfile nenhum; havia o que comemorar, mas quem vira o campo de batalha de perto sabia que aquilo não pedia comemoração. Os portões abriram-se mudos, as mulheres contavam rostos, um a um, sem dizer nada. As viúvas e as mães enlutadas lacrimejavam sem palavras.

Já na cidadela, Gramoz despiu a cota de malha sozinho, lavou o rosto na água fria da bacia, comeu pão fresco e queijo sem perceber o gosto. Escreveu uma carta curta endereçada ao rei de Mouria: “Vencemos uma tentativa de invasão helshamiana no rio Knutster. Os invasores do leste perderam mais da metade das forças enviadas. Voltarão, sei que voltarão. São uma ameaça certa; vêm testando as fronteiras há décadas. Mandem homens. Ouro. O que puderem. Ou serão os próximos a enterrar os seus durante noites e dias.”

Selou a carta, entregou ao mensageiro, ordenou-lhe que partisse até a capital e, de lá, com permissão do duque ao ler a carta, que esse a selasse novamente para tomar o primeiro barco a sair pela rota de Mealva. Gramoz subiu sozinho à torre mais alta da cidadela. Dali se via, nos dias claros, uma linha esverdeada ao longe, onde a pradaria começava a subir rumo às primeiras colinas de Helsham. O vento que subiu até a torre já vinha frio: o inverno aproximava-se.

Gramoz deteve-se ali um bom tempo sem pensar em nada com clareza suficiente. Pressentia a certeza incômoda da guerra vindoura através daquela carta juvenil, ainda selada, em suas posses.

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