segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

MitoLógicas #7

Escreveu um poema

Ele: cavalheiro, como todos. Rosto invisível, ausente, fazia charme – marcante, o jeito seu. Nos ares da cidade, cheia de cinza e vazia de gente, peito pulsante por um sorriso. Ela: princesa no sentido parcial do termo. Abandonada pelo mundo, emaranhada em falas e bocas e olhares e línguas e cheiros e toques. Aquecida acolhida encolhida nele encontrou. Trocaram palavras muitas: não comerciavam, não escambavam; amavam.

Em seu coração: espinho (falante). Palavras vis e intentos pueris de trajar e andar e viver.

Moços: feridos. Dor desigual. Corações: fora do lugar, despetalados.

Partida: ela, com coragem, sob a chuva. Refletida onde já ele não via; entretido noutro pulso. Ele: novo, nova acolhida encolhida; fria; úmida. Igual? Não há (como) saber. Respiração: agitada. Aventura, a nova. Gritou, ardeu, odiou, finalizou: vida, presenteie-me com amor!

Sem direito a exposição, modulação, recapitulação, a sonata ficou demasiado sonora e pouco musical.

Rosto bonito: fim trágico: justo, o mais.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Hermetologia #7

Há dois fatos extremamente relevantes nos inícios da filosofia, os quais tendem a ser ignorados, esquecidos, obnubilados por algum motivo que desconheço. Seja como for, ambos colocam uma questão crucial, vejamos.

O primeiro: Filóstrato diz que Protágoras era discípulo de Demócrito, mas, mais importante, o sofista teria também estudado com os magos persas.

O segundo: Górgias inicia seu Elogio falando daquilo que é ordenado, harmônico, mas, atentemos ao termo utilizado no original: cosmos.

Adicionemos a isso o poder atribuído à retórica dos sofistas por Platão e Aristóteles, o poder de mexer na alma, de mover os outros, bem como a paródia gorgiana do tratado de Parmênides.

Isso nos permite entrever o lugar cósmico, universal, galáctico, extra-humano e extra-mundano da linguagem, como também o fato de a linguagem exibir a disjunção no seio do Ser, o furo fundamental.

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

MitoLógicas #6

Certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois talvez ainda sonhamos.

E assim faremos, se estamos
em mundo tão singular
que viver não é mais que sonhar,
e a experiência, risonha,

diz que o homem que vive sonha
aquilo que é até despertar.
Sonha o rei que é rei, e vive
com este engano mandando,

dispondo e governando;
e aquele aplauso, que, breve,
recebe, no vento se escreve
e em cinzas o converte

a morte: desgraça forte!
Existe quem tente reinar
vendo que irá despertar
dentro do sonho da morte!

Sonha o rico em sua riqueza,
que mais zelos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e sua pobreza;

sonha o que inicia a destreza;
sonha o que afana e pretende;
sonha o que agrava e ofende;
e no mundo, em conclusão,

todos sonham o que são,
e que é assim ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
destes grilhões carregado

e sonhei que em estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida?: um frenesi.
Que é a vida?: uma ilusão,

uma sombra, uma ficção;
e o maior bem é bisonho,
que toda a vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são.

Pedro Calderón de la Barca

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Hermetologia #6

A língua bloqueia o acesso às coisas nomeadas ao mesmo tempo em que as nomeia. Em outras palavras: a língua é soberana do homem, não o contrário. Por isso, pensar é sempre complicar, embolar, enrolar, dobrar(-se sobre si).

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

MitoLógicas #5

Sempre mexendo no cabelo. Vídeo no banheiro, escovando os dentes; exibe vestido verde no samba na laje – bar chique, apenas imita barraco, nada do que se imaginaria pelo nome. Mexe sempre no cabelo, na selfie e no vídeo sensual. Por que tamanha ansiedade? Angústia transbordando até se sentir de longe. Sempre drinque na mão: álcool amigo inseparável. Já não tem o nariz de outrora, nem traz o busto diminuto de antanho. Algum valor há, deve haver. Sim, é isso mesmo. Há valor porque há medida. Assim, já não há nada. Só vale o que não pode valer, sem medida. Apenas cálculo, aritmética do lucro das sobras dos restos. O essencial.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Hermetologia #5

As outras da filosofia, aquelas que se dedicam a não serem filosofia sem, contudo, deixarem de filosofar, são as mais importantes das tarefas, das aventuras, da linguagem. Filosofar sem chegar à filosofia: literatura, retórica, sofística.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Serial Musings #9

As I've been discussing thresholds, for this final entry, here is In the current six thresholds (1929), by the unforgettable Paul Klee.