domingo, 7 de fevereiro de 2021

Hermetologia?

Nós não nos relacionamos com a linguagem, é a linguagem que nos relaciona. Assim como palavras unem-se, afastam-se, aproximam-se, separam-se, assim também é conosco. As inexplicáveis combinações acertadas ou desagradáveis, possíveis ou impossíveis, tudo isso é modelado à maneira da linguagem. Talvez seja este o ponto: tudo é modelado na linguagem e/ou pela linguagem. Sempre resta esse vínculo de fundo. Isso é, de alguma maneira, a medida da existência linguística.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Menina-estrelas

Menina-estrelas
, constelação encarnada
, deixa beijar-te a boca
fazendo estalo que ressoa
pelo universo do teu quarto
, apertando teus quadris
.

Sorris
: desejo
, é fato
.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

eu ser só

eu
tanto
quanto
ser
longamente
dever

eu
nunca
eu

mar
de ilusão
calor
?

alguém
apenas
?

tanto que só
eu

quem
?

plenamente
apenas

eu
.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Hermetologia?

Premissas: a crítica não é uma função do gosto; a obra fornece as condições de sua crítica; a língua é o parâmetro.

Comecemos pela última premissa: a língua é sempre parâmetro, pois se trata da mediação universal, primordial. Não haveria mídia sem língua. Língua é mediação. Assim, a crítica constitui uma parte essencial da teoria do conhecimento (seja gnosiologia ou epistemologia), por isso a teoria do conhecimento é apenas uma forma muito específica da teoria de mídia. Os estudos de linguagem não devem constituir, portanto, o privilégio desta ou daquela mídia, senão a teoria da mediação, os dois modelos, precisamente, são a crítica literária e a tradução.

Essa premissa também implica que o parâmetro não é a crítica de artes plásticas, como se vem consolidando há muito, mas a crítica de poesia, a crítica às artes literárias. A seu turno, isso implica que o parâmetro mesmo não é nenhum exemplo de artes plásticas, seja pintura, desenho, escultura, etc., mas o poema e, mais modernamente, o romance (e o conto).

Isso ainda acrescenta uma volta ao parafuso, tendo em vista que a crítica e a obra habitam o mesmo meio, a mesma mídia, e se valem das mesmas ferramentas, ou seja, tudo está feito em linguagem, são textos de um lado e textos de outro. Percebe-se o acréscimo de complexidade ao se reintroduzir o conhecimento, o qual se torna, agora, meio, mediação.

A primeira premissa nos diz que o gosto tem sua função na crítica, visto que orienta o crítico a esta ou àquela obra, mas não se pode estender além desses limites estreitos das afinidades, porque reduziria a crítica à empatia fácil.

A crítica, ao contrário, constitui-se na capacidade de manter distâncias ao desenvolver familiaridade com a obra. Trata-se, portanto, de uma ambivalência, um jogo dúplice. Se exige, por um lado, o comentário, portanto a análise da obra, sua dissecação em elementos constituintes (e a frieza requisitada para essa tarefa), por outro, demanda a reintegração dessas partes, não numa totalidade fetichizada, reificada, senão na singularidade da obra enquanto unidade unitária (e a paixão requisitada para essa tarefa). A obra, como a ideia, é um todo não total, experiência integral sem integridade, impassível à integração.

A premissa medial afirma que a obra traz todo o material necessário para sua crítica. Isso se deve à obra ser como a ideia, totalidade não totalizável. As contrapartes da obra são a vida, a coisa e o mundo. Gostaria de deixar esta parte aberta à interpretação, mas anotarei minimamente alguma orientação de leitura.

Mundo é o chão a partir do qual pode brotar e haver obra (e vida e coisa). Vida é a contraparte do crítico à obra. Coisa é a contraparte da matéria à obra.

Assim, a obra se coloca como uma vida, outra vida que não do crítico (nem do autor), vida outra, mas também outro da vida, outra coisa que não vida. Coloca-se como a única coisa que não é uma coisa propriamente, mas que se faz feita de coisas, faz uso das coisas, a fim de não ser em si uma coisa, não se reduzindo a uma coisa em si. Coloca-se como outro mundo que abre tanto o mundo como outro, quanto o outro do mundo.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Hermetologia #13

O mínimo que devemos atentar, na história do pensamento na Grécia antiga, é para a relação entre masculino, feminino, filosofia e sofística.

Se o masculino é o já dado e a feminino não é, não há, mas está por fazer-se, então a sofística sabia que fazia mulher. Pois a filosofia e a política ocorriam dentre homens iguais – gregos, livres, adultos, de mesma faixa etária – que não se podiam foder, que não podiam transar entre si. Assim sendo, precisavam gozar de alguma maneira e gozavam penetrando o outro pela linguagem, pelas orelhas, pela fala. Acariciavam-se entre si com a boca, com o ar que sai da boca, com a sugestão do hálito ao outro. Nisso, precisavam sobrepujar o outro para poderem penetrá-lo, dominar o outro para poderem gozar com seus corpos rendidos. Dessa maneira, a filosofia constituía uma luta, uma agressão e uma violência de ordem sexual.

A sofística, por outro lado, provocava no corpo do outro sugestões, estremecimentos, os quais, então, produziam ainda mais alguma coisa e ainda levavam o outro, o estremecido, o sugestionado, a agir, ou seja, aumentavam-lhe o potencial, a vitalidade, era, portanto, uma atitude ética. A sofística, também, fazia mulher e fazia-se mulher, quer dizer, tornava-se agradável de contemplar e provocadora, tentadora. Por não falar de algo, nem sobre algo, mas simplesmente falar, a sofística produzia algo e esse produzir também (re)aparece na sua parceira, a poesia.

Hermetology #13

At the very least, in the history of thought in ancient Greece, we must pay attention to the relationship between male, female, philosophy and sophistry.

If the masculine is the given and the feminine is not, it is not, but it is still to be done, then sophistry knew that it made woman. For philosophy and politics occurred among equal men – Greeks, free, adults, of the same age group – who could not fuck themselves, who could not fuck each other. Therefore, they had to enjoy themselves in some way and they enjoyed penetrating the other by language, by ears, by speech. They caressed each other with their mouths, with the air that came out of their mouths, with the suggestion of breath to the other. In this, they needed to surpass the other in order to penetrate them, to dominate the other in order to be able to cum with their surrendered bodies. In this way, philosophy constituted a struggle, an aggression and a sexual violence.

Sophistry, on the other hand, provoked in the other's body suggestions, trembling, which then produced something more, and still led the other, the shaken, the suggested, to act, that is to say, it increased their potential, their vitality, and was therefore an ethical attitude. Sophistry, too, made woman and became woman, that is to say, it became pleasant to contemplate and provocative, tempting. By not talking of something, nor about something, but simply talking, sophistry produced something, and this also (re)appears in her partner, poetry.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Hermetologia #12

Palavras não são termos, assim como a gramática não está subordinada à lógica. Nada disso ainda é a essência da linguagem. Assim como a linguagem esconde sua essência, descobrimos, assim, que sua essência é esconder.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Hermetologia #11

A certa altura da história francesa, o pensamento sobre a linguagem separou-se da reflexão de matriz grega e aristotélica, aproximando-se, talvez de uma matriz estoica, mas isso ainda não é dizer tudo. Ruptura violenta para nosso benefício: já não há a tríade sagrada do lógos, o ser e a lógica. Porque, a princípio, a língua era a língua: lógos nomeava o pensamento e a língua (grega). Exatamente por isso a concordância estrutural entre as categorias do grego (antigo) e da ontologia; daí a lógica nomeava esse isomorfismo. Contudo, em algum momento da herança das mudanças iniciadas na gramática de Port Royal, a lógica já não precede a gramática (nem a ontologia, portanto). Ao contrário, uma gramática significa que a língua possui ser(em-si), que é algo ela mesma. Isso traz obscuridade à cena: a língua é opaca, não dá acesso a nada, ao contrário, nós nem sabemos o que ela é. Para justificar o ser da língua, esse estatuto de entidade conferido à língua, foi preciso retirar o significado referencial de cena. O antigo dispositivo que sustentava a tríade ruiu; das ruínas emerge o sentido figurado, conotado: o jogo de palavras fundamenta o sentido e apenas por extensão, abstração, generalização, a referência, a denotação, passa a constituir significado. Assim, se há um hard problem of consciousness, há este outro problema, o harder problem of meaning: o que diabos quer dizer?