Arte é contato com o inumano que habita em todos nós: seja o animalesco e abjeto infra-humano — como em Lautréamont, Clive Barker, Artaud, Pierre Guyotat —, seja o angelical e santificado sobre-humano — como no salmista bíblico, em Rōdhakī, Hāfez ou Petrarca. Estilo, portanto, não é uma tal ou qual forma da expressão individual, externalização da alma, exposição de uma suposta interioridade, mas a construção de uma forma justa (justa e correta, como no Direito, justa e adequada, como na Moda). Essa forma é justa porque é homóloga ao mundo, segue a mesma lógica do mundo (homo-logos): tão obscura, densa e impenetrável quanto a matéria do dia. O estilo, portanto, é a maneira que se encontrou para fazer com que as coisas — as ideias, os seres, os momentos — durem no tempo, o que faz com que a linguagem também endureça para permitir essa duração. Mostra-se, assim, como a chance de um leitor colocar seu próprio tempo transversalmente no tempo cronometrado do trabalho e da rotina.
domingo, 27 de agosto de 2023
terça-feira, 30 de maio de 2023
Uma tradução de C. Milosz
Castelo de um sonho
Czeslaw Milosz
A cidade era semelhante a um castelo, compacta, densa, com várias camadas, como os edifícios de Piranesi. Predominavam os tijolos vermelhos — significavam civilização — e, do outro lado do rio, começava a selva. Ele marchou rapidamente; seus companheiros, um ele e uma ela, mal conseguiam acompanhar. De repente ele percebeu como a abstração se transforma em realidade: os aromas picantes das lojas, o vapor sedutor das cozinhas que passavam, as enormes tábuas de presuntos, as tabernas cheias de bebedores de vinho… Ah! Devolver-se aos sentidos, apenas isso e nada mais.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023
sábado, 31 de dezembro de 2022
Última entrada deste ano
Disseram-me hoje ser possível manter um diário sem escrever diariamente. Foi como dizerem que me amam. Palavras suaves e doces — alívio. O que livra do peso, liberta da obrigação respeitando a vontade, banha feito bálsamo.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2022
Quando o céu é mais azul
O céu não é mais azul quando o sol despe-se de nuvens. Esse céu é apenas quente e amplo. O céu deixa-se azular quando sorris após o tapa tão leve, simbólico, sucedâneo do adjetivo (idiota), prenúncio do esplendor em teu rosto. Ali, naquele instante. O céu mais azul. Da cor da esperança e da melancolia. Dos sentimentos gêmeos: sol e lua de mãos dadas no amanhecer. O céu queima sob o astro nu; teu rosto queima o coração. Cerúleo (adjetivo): quando miro ao lado e o vento denuncia que teu perfume impregnou o ombro esquerdo da camiseta: jamais posso lavá-la novamente, só a memória já não basta. Tudo isso ainda não é dizer nada e tu o confirmas sem dizer palavra. Chegará algum dia o fatídico episódio quadragésimo nono da série (para a alegria dos que assim nomearam a situação, é claro)? Tu bem sabes; também sei. Não bastou. Nem basta. Bastará? As mordidas dos mosquitos já não coçam quando essa hora alcança o íntimo. Se ao menos teus olhos
terça-feira, 29 de março de 2022
Comentário leigo a Bava Batra 4a:3
Bava Batra 4a:3
Herodes disse a ele: “eu sou esse. Se eu soubesse que os Sábios eram tão cautelosos, não os teria matado. Agora, qual é o remédio deste homem?”, ou seja, o que posso fazer para me arrepender de minhas ações errôneas?
Bava ben Buta disse-lhe: “aquele que extinguiu a luz do mundo ao matar os sábios da Torá, como está escrito: ‘Porque o mandamento é uma lâmpada e a lei [ou seja, a Torá] é luz’ (Prov. 6:23)1, deve ir e ocupar-se da luz do mundo, isto é, do Templo, como está escrito em relação ao Templo: ‘E todas as nações fluirão para esse [lugar]’ (Isaías 2:2)2, [a palavra] ‘fluirão’ aludindo à [palavra] ‘luz’.”
Comentário leigo
Como Bava relacionaria as palavras “fluirão” e “luz”? Isso se deve à estrutura das palavras nas línguas semitas (línguas como o hebraico, o aramaico, o árabe e outras).
As palavras nas línguas semitas compõem-se a partir de uma raiz consonantal, não a partir de algumas sílabas com vogais e consoantes como em português (e todas as línguas neolatinas). O que une todas as palavras relacionadas à escrita, no português, é o bloco escr-, como em escritor, escrevente, escritura, escrever, etc.
Nas línguas semitas, o processo é diferente: as consoantes k, t e b compõem todas as palavras ligadas à escrita e a documentos escritos, como livros, vide os seguintes exemplos em hebraico: kāṯaḇti (כתבתי): “eu escrevi”, kattāḇā (כתבה): “artigo”, miḵtāḇ (מכתב): “carta-postal”, miḵtāḇā (מכתבה): “escrivaninha”, kəṯīḇ (כתיב): “soletração”, taḵtīḇ (תכתיב): “prescrito”, məḵuttāḇ (מכותב): “destinatário”, etc.
Além disso, o sistema de escrita hebraico registrava somente as consoantes das palavras. Apenas a partir do século Ⅸ E.C. desenvolveram-se sinais diacríticos que se adicionam às consoantes hebraicas para indicar as vogais das palavras — pequenos pontos e traços adicionados acima e abaixo das consoantes, chamados nəqudōt (singular: nīqqūd).
Daí Bava poder relacionar as duas palavras (“fluirão” e “luz”), pois continham as mesmas consoantes nos dois versículos citados por ele (wə·nā·hă·rū — וְנָהֲר֥וּ — nêr נֵ֣ר formando a raiz consonantal n-r, explícita em nêr e contida em wənāhărū, assim uma palavra estaria dentro de outra, em seu interior, compondo seu sentido íntimo, isto é, de dentro, não oculto, mas literalmente — à letra — interno). Eis porque a hermenêutica judaica é uma hermenêutica eminentemente da letra e da palavra, não cedendo ao império do significado, senão abraçando os indícios deixados pelos significantes em seu rastro.
nêr (נֵ֣ר): “lâmpada” (substantivo masculino singular), miṣ·wāh (מִ֭צְוָה): “comando, mandamento” (substantivo feminino singular), wə·ṯō·w·rāh (וְת֣וֹרָה): conjunção aditiva “wə” + “Torá” (substantivo feminino singular), ’ō·wr (א֑וֹר): “luz” (substantivo comum de dois gêneros singular).↩
wə·nā·hă·rū (וְנָהֲר֥וּ): conjunção “wə” + “fluirão” (verbo de tema leve, isto é, simples, chamado tema qal (קַל), modo conjuntivo, aspecto perfectivo, conjugado em terceira pessoa plural comum de dois gêneros).↩
