quinta-feira, 16 de abril de 2026

Sobre Distância de resgate, de Samanta Schweblin

Na casa

Li o romance do título, ou novela (dada a brevidade), de uma só vez ontem, em três fôlegos (comecei-o antes de um compromisso, continuei quando retornei, segurando a bexiga até quase estourar e após o inevitável xixi). Como se sabe, o romance é elogiado, como a autora. Até aí, nada a declarar. No entanto, não funcionou plenamente comigo. Nenhuma ironia nisso (a despeito da luta com a natureza nos parênteses iniciais). Quero dizer, o jeito de contar funcionou, a apresentação dos acontecimentos em um diálogo de parágrafos curtos e frases de registro sociolinguístico conversacional. Constituiu-se uma intimidade entre dizer, pensar, narrar e descrever que confundiu vivência e memória da narradora-protagonista de modo eficaz até dado momento do desenrolar da trama. De fato, a classificação como “horror atmosférico” procede, está adequada, pois as ameaças pressentidas durante a leitura não têm exatidão, permanecendo difusas, sendo apenas sugeridas (eis sua força, a qual também compõe sua fraqueza). Para alcançar algum horror mais sentido que pressentido, o romance precisaria sugerir (ou sugestionar) uma ambiguidade (indecidível) na leitura de maneira mais clara, algo que jamais alcança por insistir em pânicos e culpas tão etéreos que lhes faltam qualquer justificativa, motivo, sustentação, vínculo.

Entenda-se: o livro falha tanto em estabelecer seus próprios termos de leitura, resta tão impreciso em seus fundamentos, naquilo que oferece como chão interpretativo para (não) sustentar o ato de leitura, que senti como se houvesse uma premissa implícita, e jamais tornada explícita, que não descia bem, que não aceitava, que arranhava a garganta leitora quando a tentava deglutir. Não há, por uma parte, a força de desconstituição da realidade de um Samuel Beckett, nem, por outra parte, o assentamento de razões suficientes para temer-se o ocorrido. O pior, no final: quando a narradora passa a falar de seu marido, o qual não tem contato algum com ela. Aí estava a oportunidade ideal, dados os limites desse romance, para agir como o irlandês e destruir a realidade do relato diante da leitura, desfiar a trama inteira para que se espalhasse no ar como o agrotóxico que acabou com a narradora-protagonista. Entretanto, a escritora argentina apostou todas as fichas em seu delírio (a tradução inglesa do romance intitula-se Fever dream).

Essa aposta não lhe ajuda, apesar de interessante. Quer insistir que Sotomayor (a empresa responsável pelos venenos assassinos) introduziu uma ameaça mundana (direi intramundana por oposição ao lovecraftiano (e ainda algo religioso) extramundano), desprovida de contraface com a qual (des)equilibrar o ocorrido (daí que o marido da falecida, ao fim, contenta-se com um silêncio torpe e foge dos medos indefinidos dessa zona rural de volta à vida urbana, como se essa alternativa fosse grande coisa). Há mérito se vislumbrado assim — quiçá não aceitável, ou, pelo menos, necessário (parte da premissa indeglutível) —: as forças e pressões que o setor agrário exerce sobre nossas sociedades latino-americanas permanece uma ameaça quase cósmica, ao gosto de Cthulhu e companhia. Sim, nisso há algum mérito, mas isso permanece uma expansão que exerci e consigo ver facilmente como muitos leitores podem não alcançar por si, bem como exige muita fé em um enredo que não se oferece para tanta credulidade assim.

Novamente: Distância de resgate queria fazer parte dos romances cuja compressão faz efeito, no entanto, a atmosfera resultante não se espessou o suficiente para condensar e efetuar as sugestões necessárias para sustentar o terror prometido. Teorizo: faltaram camadas intermediárias: criou-se uma situação de pânico materno de contaminação e desorientação pelo inevitável disso (afinal, o pânico materno é todo de não se poder impedir o pior com a criança), porém, isso não sustentou a ameaça postulada aí, porque o romance saltou entre suspeita do perigo, percepção e tomada de consciência do problema e o delírio paranoico (que enseja o relatar propriamente dito). Dessa maneira, a leitura paira na instabilidade em vez de cair em sua armadilha, suspendendo-se por tênues fios de (des)crença que não podem alimentar os temores instigados durante os ocorridos.

Se há finais abertos, nesse caso fica tão aberto que se torna um descampado sem caminho (quando o poder dos finais abertos reside em sugerir alguns caminhos, não nenhum caminho), em outras palavras, nem uma explicação encerra os acontecimentos, mas tampouco ocorre alguma expansão alegórica (“simbólica”, como se diz tanto hoje) que enriqueça a experiência de leitura acumulada até ali (o fim); ao contrário, o romance aposta em um colapso de perspectiva que tentaria manter o mistério da situação toda, porém, não investe suficientemente em correspondências e consequências sugeridas entremeadas às descrições e narrações para preencher o vazio com (sensações de) ameaças e torná-lo realmente um horror. Parece uma máquina incompleta — não a “máquina preguiçosa” que descrevia Umberto Eco, cujos efeitos ocorrem-nos porque a ativamos com a leitura —, cuja eficácia falta em seu lugar porque a engenharia foi apressada. A escritora apresenta artesania (perícia, engenho, capacidade), parece apenas lhe faltou paciência. Note-se: há força, mas essa opera numa faixa tão estreita que só consegue gerar urgência, restando insuficiente para provocar reações mais (pro)fundas e reverberações significativas, constituindo-se em uma espécie de corredor de tensão, incapaz de arquiteturar essa mesma tensão para engolfar a leitura e significá-la intensamente com a ameaça que gostaria de constituir.

(Talvez, somente talvez, tenha-me atentado a tudo isso porque sofro de males semelhantes: escrita ameaçadora diluída por falta de assentamento de bases firmes que agarrem os pés dos leitores como mãos de mortos-vivos saídas da terra úmida e escura do texto. Enxergo, vejo, sei e admito meus limites, mesmo ainda não vislumbrando como superá-los. Ser crítico traz dessas dificuldades e outras. De todo modo, a artesania ainda vence: um texto bem escrito fisga a leitura e isso já merece celebração por ser um desses facilmente esquecíveis prazeres da vida leitora.)

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